As 10 melhores frases de O Jogador, de Dostoiévski

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O conceito de jogo é muito caro para a arte moderna. Jogar, no decorrer do final do século XIX para o começo do século XX, vai ter diversas conotações e, principalmente, vai assumir diversos valores tanto materialmente, quanto nas questões envolvendo a estrutura dos textos. Estar no jogo, jogar, ser um jogador, será, entre outras coisas, a ideia de colocar a vida e a arte em risco, como que presa por um breve fio que pode a todo tempo se romper. Dostoiévski, como um grande conhecedor dos meandros da humanidade, foi um dos primeiros a atentar para toda questão que envolve o Jogador. (leia mais aqui! )

Agora, perguntava-me de novo: amo-a? Ou melhor, respondi-me novamente, pela centésima vez, que a detestava. Sim, odiava-a! Havia momentos (sobretudo depois das nossas conversas) em que teria dado metade da minha vida para estrangula-la! Juro-o. Se tivesse sido possível, ainda há momentos, cravar-lhe no peito um punhal bem afiado, julgo que o teria empenhado de boa vontade.

 

Sabe, por exemplo, que a amo até a demência, permite-me até falar-lhe da minha paixão, e naturalmente, não haveria um meio de expressar mais intensamente o seu desprezo por mim do que com esta permissão de lhe falar do meu amor, sem qualquer obstáculo ou contenção.

 

Ao entrar – pela primeira vez em minha vida – permaneci algum tempo sem ousar me entregar ao jogo. (…) Meu coração batia forte, confesso, e faltava-me o sangue-frio. (…) Um acontecimento radical interferiria infalivelmente em meu destino. É preciso e assim será. (…) Por que o jogo seria pior do que outras maneiras de ganhar dinheiro, do que o comércio, por exemplo? É verdade que apenas um sujeito em cada cem tem a sorte de ganhar. Mas por que me inquieto com isso? (p. 19)

 

A situação mais simpática é aquela em que as pessoas não se envergonham umas das outras, mas agem franca e abertamente. E para quê enganar-se? É a mais vã e imprudente das ocupações.

 

Aqui é a forma que importa. Nós, os russos, somos na maior parte tão ricamente dotados que precisamos de gênio para encontrar uma forma conveniente. É frequente faltar-nos gênio, pois este é bastante raro de um modo geral. (p. 49)

 

Com efeito, ela sabia que eu a amava de verdade; e ela mesma me permitia falar-lhe disso! É verdade que a coisa começara entre nós de modo um tanto estranho. Havia tempo, uns dois meses, começara eu a notar que ela queria fazer-me seu amigo e confidente, e que, em parte, já fazia tentativas nesse sentido. Mas, por um motivo qualquer, isso não prosseguira; pelo contrário, sobrevieram as nossas estranhas relações atuais; por isso mesmo, comecei a falar com ela daquele modo.

 

Já sabe que me permito dizer tudo e, às vezes, faço perguntas muito francas. Repito sou seu escravo e não se tem vergonha de um escravo: o escravo não pode ofender a ninguém.

 

Sim, às vezes o pensamento mais louco, o mais impossível na aparência, implanta-se com tal força em nossa mente que acabamos acreditando em sua realidade… Mais ainda: se essa idéia está ligada a um desejo forte, apaixonado, acabamos acolhendo-a como algo fatal, necessário, predestinado, como algo que não pode deixar de ser nem de acontecer! Talvez ainda haja mais: uma combinação de pressentimentos, um extraordinário esforço de vontade, uma autodireção da própria fantasia, ou lá o que seja – não sei. (p. 180)

 

Experimentava uma espécie de febre, e joguei todo aquele monte de dinheiro no vermelho – quando de chofre, recobrei a consciência! Foi a única vez, durante toda a noite, que o medo me gelou, manifestando-se por um tremor das mãos e dos pés. Senti com horror e tomei consciência instantaneamente do que significaria para mim, naquele instante, perder! Era toda a minha vida que estava em jogo!

Edição: O Jogador, Feódor Dostoiévski, L&PM, 1998
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