Os 2 últimos poemas de Sylvia Plath, pouco antes de seu trágico suicídio

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[Postado originalmente no Literatortura]

A poeta americana Sylvia Plath, que escolheu a Inglaterra como sua segunda casa, teve grande parte de sua obra lida, nos dois países, a partir de seu suicídio. Os debates sobre sua vida sempre estiveram na chave entre a tentativa de explicar a morte da poeta ao enfiar a cabeça em um forno a gás; o esforço de seu ex-marido Ted Hughes e sua irmã Olwyn em brecar qualquer tipo de reflexão sobre o tema, alegando seu direito à “privacidade” (e controle do acervo, claro); e de grupos engajados que viam na história de Plath uma excelente possibilidade de ideologização do tema, fazendo dela exemplo para outras mulheres que haviam sido oprimidas e destruídas pelos seus maridos.

Entretanto, os últimos poemas de Sylvia, escritos uma semana antes de seu suicídio, costumam passar despercebidos ou, quando lidos, permanecem na chave da morte que se aproxima. A leitura de ambos está tão contaminada pelo biografismo e pela morte que não se consegue perceber neles nada para além desta temática, aprisionando a arte a um fato objetivo sem perceber as oscilações subjetivas possíveis naquilo que chamamos de mundo da vida.

O primeiro deles chamado “Balões” nos mostra uma espécie de perda gentil, ou perda doce, como se o corpo de uma criança, frente a este balão que escapa, pudesse conter algo essencial para entender como o mundo se apresenta.  Leia o poema completo:

Balões

“Desde o Natal estão com a gente,
Claros e inocentes,
Bichos de alma oval,
Tomando metade do espaço,
Movendo e roçando sua seda

Invisível, o ar os leva,
Gritando e estourando
Quando feridos, murchando até o fim, em convulsão.
Cabeça de gato amarela, peixe azul –
Em vez de uma mobília velha

Com que luas estranhas convivemos:
Esteiras, paredes brancas,
E estes globos peregrinos
Cheios de ar leve, verde ou vinho,
Divertindo

O coração como desejos ou pavões
Livres, abençoando
O antigo chão com suas penas
Folheadas em metal.
Seu irmão caçula

Está fazendo
O balão miar feito um gatinho.
Parece ver
Do outro lado um mundo cor-de-rosa, comestível,
Ele morde.

 

Perceba que há no poema ainda uma alegria, uma espécie de felicidade na perda, fato que pode estar perdido no instante seguinte, como ela afirma em seu diário:

“Uma história, uma foto, pode renovar um pouco a sensação, mas não o suficiente, não o suficiente. Nada é real, salvo o presente e já sinto o peso dos séculos a me esmagar.”

Eis porque se faz necessário um segundo poema, um contraponto: “Limite”, escrito na mesma semana de Balões, em um polo oposto e, ao mesmo tempo, complementar, e que apresenta a perda da dimensão doce de Balões e engendra, num traço hostil e aparentemente definitivo, um corpo abandonado, em um traçado limiar entre o corpo já morto e a vida que ainda se esvai:

Limite

A mulher está perfeita.
Seu corpo 

Morto enverga o sorriso de completude,
A ilusão de necessidade

Grega voga pelos veios da sua toga,
Seus pés

Nus parecem dizer:
Já caminhamos tanto, acabou.

Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca,
Uma para cada pequena

Tigela de leite vazia.
Ela recolheu-as todas

Em seu corpo, como pétalas
Da rosa que se encerra, quando o jardim

Enrija e aromas sangram
Da fenda doce, funda, da flor noturna.

A lua não tem porque estar triste
Espectadora de touca

De osso; ela está acostumada.
Suas crateras trincam, fissura.

Ambos, a mim parece, falam da mesma coisa, mas encerram juntos, dualmente, uma ambivalência inescapável que atravessa toda a vida de Plath: estar muito viva e já não estar mais. A morte, o suicídio, não estão no centro dos poemas, mas da insuportável necessidade de vida, enquanto viva. O problema não está em morrer ou se matar, ou em qualquer fato relativo a “deixar este mundo”, mas em permanecer nele sem vida. Neste sentido, reler estes últimos poemas para recolocá-los em uma narrativa “da vida”, ao contrário de uma despedida ou ato fúnebre de uma escrita que se apaga.

É preciso dar a eles a força que eles têm como se, após “Limite”, algo tivesse sido ultrapassado a tal ponto que não era mais necessário escrever. Plath não morreu, deixou de estar viva a partir de certo momento e encontrou“Do outro lado um mundo cor-de-rosa, comestível”. Plath, ao morrer, viveu.

Leia a resenha da biografia da poeta:

http://indiqueumlivro.literatortura.com/2015/06/15/isis-americana-a-vida-e-a-arte-de-sylvia-plath-de-carl-rollyson/

Fonte:

ROLLYSON, Carl. Isis Americana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015

Link original: http://literatortura.com/2015/06/os-dois-ultimos-poemas-de-sylvia-plath-pouco-antes-de-seu-tragico-suicidio/