Os 9 melhores escritos de Caderno de Apontamentos, de Manoel de Barros

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“Caderno de Apontamentos” é, na verdade, um poema. Ele está no livro Concerto a céu aberto para solos de aves, e é composto por uma série de apontamentos, pequenos escritos, poeminhas. Ao melhor estilo Manoel de Barros, o caderno de apontamentos é um mosaico de imagens, sensações, pensamentos, sinestesias… sutileza, delicadeza e uma forte paixão pelo mundo da infância e da natureza.

Confira, abaixo, 9 destes lindos apontamentos:

II.

Toda vez que a manhã está sendo começada nos
meus olhos, é assim…

Essa luz empoçada de avencas.

As avencas são cegas.
Nenhuma flor protege o silêncio quanto elas.

Ó a luz da manhã empoçada de avencas!

 

IV.

Sabiá de setembro tem orvalho na voz.
De manhã ele recita o sol.

 

V.
Quando eu nasci
o silêncio foi aumentando.
Meu pai sempre entendeu
Que eu era torto
Mas sempre me aprumou.
Passei anos me procurando por lugares nenhuns.
Até que não me achei – e fui salvo.
Às vezes caminhava como se fosse um bulbo.

 

XIII.

Certas palavras têm ardimentos; outras, não.
A palavra jacaré fere a voz.
É como descer arranhando pelas escarpas de um
serrote.
É nome com verdasco de lodo no couro.
Além disso é agríope (que tem olho medonho).
Já a palavra garça tem para nós um
sombreamento de silêncios…
E o azul seleciona ela!

 

XVI.

Vi um incêncio de girassóis na alma de uma
lesma.

 

XXV. (lembrança)
Perto do rio tenho sete anos.
(Penso que o rio me aprimorava.)
Acho vestígios de uma voz de pássaro nas
águas.
Viajo de trem para o Internato.
Vou conversando passarinhos pela janela do
trem.
Um bedel raspou a cabeça de meu irmão no
internato.
Havia um muro cheio de ofendículos.
Liberdade havia de ser pular aquele muro.
Do outro lado havia um guaviral onde os
moços e as moças se encontravam e se filhavam.
A gente manuseava os pichitos.
Na Igreja os padres reuniam os alunos e
tentavam falar a sério.
Mas eu sempre achei muita graça quando as
pessoas estão falando sério.
Acho que isso é um defeito alimentar.

 

XXX.

Atrás do voo dos patos seguem os restos dos dias…

 

XXXVI.

A voz de um passarinho me recita.

 

XLVIII.

……………
Sei de conchas em mim ouvindo hinos.
Estou em vão.