“Os Afogados e os Sobreviventes”: Auschwitz pelas palavras de Primo Levi, sobrevivente do campo

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[Postado pelo Indique Um Livro]

“Os Afogados e os Sobreviventes” é um livro de Primo Levi, químico e escritor italiano que sobreviveu ao campo de Auschwitz. Ele é autor do conhecido “É Isto Um Homem?”. Suas obras pretendem trazer relatos do cotidiano nos campos de concentração e análises sobre o nazismo e o Holocausto.

Primo Levi

Holocausto. Palavra que até hoje causa desconforto – e com razão: 71 anos depois do fim da segunda guerra mundial, os 6 milhões de judeus assassinados pelo nazismo ainda ecoam na ferida consciência do mundo. São muitos os livros, filmes, documentários e monumentos que procuram nos lembrar daquele que foi um dos maiores massacres da História. “Os Afogados e os Sobreviventes”, de Primo Levi, destaca-se por algumas razões: pela força da palavra do autor, sobrevivente de Auschwitz; pelos relatos do cotidiano no campo de concentração, que nos impulsionam a tentar compreender o horror do nazismo; e pela coragem de tentar responder, problematizar e complexificar a pergunta que, segundo ele mesmo, muitos dos sobreviventes já ouviram: “por que não fugiram ou se rebelaram?”.

Pela primeira razão, a leitura do livro de Levi é impactante e captura o leitor que, chocado, se vê incapaz de parar de ler, num misto de desespero, angústia, assombro e – por que não? – incredulidade; pela segunda, o leitor é forçado a admitir que não é possível compreender Auschwitz: o nazismo é o incompreensível por excelência; por fim, pela terceira razão, ler este livro é uma experiência esmagadora, como um soco na cara que expõe com crueza o quão desumano o humano pode ser.

Constatando que toda narrativa é marcada pelas lacunas e pelos preenchimentos do que se lembra, se esquece e se escolher revelar, Levi começa falando sobre “a memória da ofensa” – os relatos dos poucos sobreviventes do Holocausto tentam ordenar esta narrativa do horror, que marcou definitivamente a sociedade como um todo: lembrar para que não se repita. Segundo seu diagnóstico, estas narrativas em geral deixaram de lado aquilo que ele chama de “zona cinzenta”, as negociações, as concessões, os sacrifícios feitos por prisioneiros dos campos que, em troca de um litro de sopa a mais, de uma ou de outra maneira foram peças para a manutenção do sistema. Primo Levi, aqui, faz uma ressalva que, mais do que ressalva, deve ser a regra para lê-lo e ler estas palavras sobre este tema: não cabe a ninguém, nem a ele e muito menos a qualquer um que não esteve nos campos, qualquer juízo de valor sobre estes atos e estas pessoas.

Comprometido a não julgar, Levi analisa a organização do sistema nazista, sua força, congruência e coerência que possibilitaram que a tortura, a morte e o sofrimento tomassem a dimensão de um horror indescritível e inimaginável. Jamais simplificar a história: se compreender é tido como sinônimo de simplificar, perdemos uma série de informações e leituras cruciais para a compreensão. É neste sentido que Levi explora esta “zona cinzenta” que, acima de tudo, reifica a perversidade do nazismo. E como resultado desta perversidade, a vergonha daqueles que, mesmo não sendo culpados de nada, são soterrados pelos “e se” e pelo que supõem que poderiam ter feito a mais, a menos ou diferente. Vergonha esta que também é resultado do ódio do nazismo que, não satisfeito em matar, torturou e sacrificou, como animais, milhões de inocentes.

Segundo Primo Levi, o que difere o nazismo de outros sistemas ditatoriais e violentos é a série de “violências inúteis” por ele perpetradas: a obrigação de evacuar na frente de outras pessoas, no trem até o campo, sem latrina ou sequer um balde; as incontáveis vezes que os prisioneiros eram desnudados, apenas pela humilhação; as refeições de sopas sem colheres; a tatuagem com o número de cada prisioneiro; o trabalho degradante… violências que, mais do que a morte de fato, matavam aos poucos – morte simbólica, que reafirmava a retirada do estatuto de humanidade que não lhes era mais de direito.

“Os Afogados e os Sobreviventes”, mais do que importante, é um livro necessário. É necessário para que jamais nos esqueçamos do horror do Holocausto. Para que nos forcemos a olhar a fundo esta que é a maior e mais dolorida mancha da história da humanidade.