A Poesia de Penny Dreadful: leia os poemas citados na série

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O seriado Penny Dreadful já tem um enredo e uma ambientação completamente inspirada em literatura. A história da série traz elementos de obras clássicas da literatura gótica vitoriana, como Drácula, Frankenstein, O Retrato de Dorian Gray, O Médico e o Monstro, entre outros. Resumidamente, tudo começa com o pai de Mina Harker pedindo a ajuda de amigos para recuperar a filha, que foi raptada por Drácula. Entre esses amigos, encontramos alguns nomes familiares da literatura, como Victor Frankenstein, que junto com Vanessa Ives, a protagonista que tem um histórico de problemas com o sobrenatural e outro amigo deles, Ethan Chandler, unem-se ao pai de Mina Harker para tentar resgatar a jovem. Enquanto isso, Vanessa encontra Dorian Gray, um belo e misterioso jovem que vive em uma mansão cheia de quadros, onde ele guarda o segredo de sua eterna juventude, e o jovem Doutor Frankenstein ressuscita cadáveres que se tornam em criaturas inicialmente assustadoras, mas inesperadamente poéticas, como tudo nesse universo efêmero de sombras e mistérios que é o mundo de Penny Dreadful (o nome da série é uma referência a folhetins de ficção “barata”, narrativas simples de terror gótico que era populares na era vitoriana).

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“Todas as pessoas tristes gostam de poesia. Pessoas felizes gostam de canções.”

No entanto, não só de narrativas góticas que foi construído o universo dessa inspiradora série: alguns dos personagens principais, como Vanessa Ives, Victor Frankenstein e a criatura de Frankenstein (primeiro chamado de Caliban, em referência à criatura deformada da peça A Tempestade, de Shakespeare, e depois autodenominado John Clare, em homenagem a um poeta citado na série) adoram citar poesia e até as falas deles frequentemente têm um tom poético, pois os roteiristas dizem ter se inspirado em poetas românticos ingleses para criar os personagens e a atmosfera da série. Além disso, muitos dos episódios têm seus títulos tirados de nomes ou trechos de poemas, como o episódio 6 da primeira temporada chamado “What death can join together” (O que a morte pode unir), que é um trecho do poema Adonais: An Elegy on the Death of John Keats (uma homenagem à morte de John Keats, outro famoso poeta inglês) escrito pelo poeta Percy Bysshe Shelley (marido da autora de Frankenstein, Mary Shelley!), e neste episódio o próprio Victor Frankenstein cita o seguinte trecho do poema:

“No more let Life divide what Death can join together.”
(Não permita mais que a Vida separe aquilo que a Morte pode unir. – tradução livre)

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“Há uma… citação de Shelley que me assombra.”

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Outro poema citado na primeira temporada foi Lines Written in Early Spring (Versos escritos no início da primavera), de William Wordsworth, em que Vanessa Ives e Victor Frankenstein recitam os seguintes versos do poema:

“If this belief from Heaven be sent,
If such be Nature’s holy plan,
Have I not reason to lament
What man has made of man?”

(Se tal crença do céu for enviada,
Se tal for o plano sagrado da natureza,
Não tenho eu razão de lamentar
O que o homem fez do homem? – tradução livre).

No iníco da segunda temporada, no episódio 2, Verbis Diablo, quando Vanessa Ives encontra a criatura de Frankenstein, que atente então pelo nome de John Clare, ele cita para ela os quatro primeiros versos do poema Auguries of Innocence, de William Blake, um poema de 132 versos publicado em 1863. (leia o poema completo aqui)

Os versos citados pelo personagem na cena são os seguintes:

“To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower
Hold Infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour”

(Ver um mundo em um grão de areia
E o paraído em uma flor selvagem,
Segurar o infinito na palma da mão
E a eternidade em uma hora)

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Também na segunda temporada, temos um episódio chamado “Above the vaulted sky”, cujo título é parte do verso final do poema “I am”, do poeta John Clare, de quem a criatura de Frankenstein empresta o nome. Veja abaixo o diálogo dos dois neste episódio, no qual John Clare conversa com Vanessa sobre ter o mesmo nome do poeta e os dois citam juntos não só um trecho do poema, mas o poema inteiro (leia no idioma original, seguido por uma tradução).

John Clare: I’ve always been moved by John Clare’s story. By all accounts he was only five feet tall, so… considered freakish. Perhaps due to this, he felt a singular affinity with… the outcasts and the unloved… the ugly animals… the broken things.

Sempre me emocionei com a história de John Clare. Pelo que se sabe, ele era baixinho, considerado estranho. Talvez por isso ele sentisse uma afinidade única com os… excluídos e os não amados… os animais feios… as criaturas destruídas.

John Clare: [Mr. Clare begins quoting a John Clare poem, ‘I Am’] I am yet what I am none care or knows. My friends forsake me like a memory lost. I am a self-consumer of my woes. They rise and vanish in oblivious host, like shadows in love’s frenzied stifled throes. And yet I am, and live…

[ele começa a citar um poema de John Clare] “Eu sou mas o que sou ninguém se importa ou conhece,
Meus amigos desistiram de mim, como uma memória perdida.
Sou o consumidor das minhas próprias mágoas.
Elas ascendem e desaparecem em chão estéril,
como sombras em dores delirantes de um amor sufocado.
E ainda assim eu sou, eu vivo

John Clare: [Mr. Clare continues as Vanessa joins in] Like vapors tossed…

[Mr. Clare e Vanessa citam juntos o poema] como vapores tremulantes….

Vanessa Ives: [Vanessa continues quoting the poem] I long for scenes where man hath never trout. A place where woman has never smiled or wept. There to abide with my creator, God. And sleep as I in childhood sweetly slept. Untroubling and untroubled where I lie.

[Vanessa continua citando o poema] Anseio por cenas onde o homem nunca trilhou.
Um lugar onde as mulheres nunca sorriram ou choraram.
Há a cumprir com o meu Criador, Deus.
E dormir como eu dormia docemente na infância.
Tranquilo e despreocupado onde repouso.

Vanessa Ives: [Vanessa continues as Mr. Clare joins in] The grass below, above the vaulted sky.

[Vanessa e John Clare citando o poema] A grama abaixo – por cima o céu abobadado.”

Leia o poema completo aqui.

Além destes mencionados acima, há outros poemas citados na série, como  “Ode on Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood” de William Wordsworth,  “Ode to a Nightingale” de John Keats, e “An Invite to Eternity”  de John Clare. Muito do estilo de escrita desses poetas, assim como a ambientação e os temas deles influenciaram muito a criação dos personagens e da forma de narrativa da série, que mistura elementos sobrenaturais com análises psicológicas dos personagens, que frequentemente questionam o mundo e a si mesmos, a mortalidade e a existência do bem e do mal dentro de cada um, identificando muitas vezes que a origem do pior dos males é algo interno, que nasce na mente de cada ser. Os piores monstros sempre são aqueles que vivem na alma de cada um e, como diz Vanessa Ives, há algo dentro de nós que nunca pode revelado, mas quando esses monstros vêm a tona, somos mais nós mesmos do que nunca, sem restrições.

There-are-things-within-us-all-that-can-never-be-unleashed.
“Há coisas em nós que não podem jamais ser libertadas.”
We're-most-who-we-are.-Unrestrained.-Ourselves.
“Somos tudo o que somos. Compreendamo-nos.”

Fontes:

http://pennydreadfulweb.com/the-show/the-poetry-of-penny-dreadful/
https://en.wikiquote.org/wiki/Penny_Dreadful
http://ccgclibraries.com/the-literature-of-penny-dreadful/

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