Os incríveis micro-contos de terror em duas frases: dá para assustar com tão pouco?

Listas, Matérias Literárias

Escrever não é uma tarefa simples, isso é um fato. Cada palavra, quando bem usada, pode ter um forte impacto no leitor, ou, caso não seja muito necessária no contexto, pode passar despercebida ou até causar uma má compreensão do texto. Escrever um livro ou conto de terror pode ser ainda mais difícil, pois, diferente de como ocorre em um filme de terror, não se tem os recursos de trilha sonora para aumentar a tensão ou sustos repentinos que fazem o telespectador pular da cadeira; já na literatura, todo o clima de tensão só pode ser construído com palavras. Ok, isso não parece algo muito simples de se fazer, mas é possível de ser feito em romances e contos, como já foi feito por mestres como Poe, Mary Shelley, Bram Stoker, Stephen King, Lovecraft, entre vários outros. Agora, imagine conseguir escrever algo minimamente perturbador (ou, em alguns casos, bastante perturbador) em apenas duas linhas, tal feito parece possível?

Primeiramente, julgue por si mesmo, pois seguem abaixo 20 micro-contos de terror que vêm circulando na internet há algum tempo, desde que foi proposto uma espécie de desafio em um fórum do site Reddit, no qual seus usuários deveriam escrever a melhor estória de terror possível em apenas duas frases. Os melhores resultados da proposta foram reunidos nesta lista, cujas traduções seguem abaixo da lista dos micro-contos originais:

  1. Acordei com um barulho de batidas em algum vidro. Primeiro, pensei que o som viesse da janela, até que ouvi o som vindo do espelho outra vez.

 

  1. A última coisa que eu vi foi o meu despertador mostrado que eram 12:07 antes que ela atravessasse suas longas unhas podres em meu peito, com a outra mão abafando meus gritos. Me sentei na cama, aliviado que era só um sonho, mas quando vi no despertador que eram 12:06, ouvi aporta do roupeiro se abrir.

 

  1. Por ter crescido com gatos e cães, acabei me acostumando com sons de arranhões na porta enquanto eu dormia. Agora que moro sozinho, isso é mais perturbador.

 

  1. Em todo o tempo que morei nessa casa, juro por deus que já fechei mais portas do que abri.

 

  1. Uma garota ouviu sua mãe chamá-la do andar de baixo. Quando ela estava saindo do quarto, em direção às escadas, sua mãe puxou-a de volta para o quarto e disse: “eu também ouvi isso.”

 

  1. Ela me perguntou por que minha respiração estava tão pesada. Não estava.

 

  1. Minha mulher me acordou noite passada para me dizer que tinha um invasor em nossa casa. Ela foi assassinada por um invasor há dois anos.

 

  1. Me acordei com o som da babá eletrônica do quarto do meu filho mostrando uma voz o confortando. Quando me virei na cama, meu braço roçou em minha mulher, dormindo ao meu lado.

 

  1. Sempre estranhei como minha gata olha fixamente para mim – parecia sempre olhar fixamente para o meu rosto. Até que, um dia, notei que ela estava sempre olhando para trás de mim.

 

  1. Não há nada como o riso de um bebê. A menos que seja 1 da manhã e você esteja sozinho em casa.

 

  1. Eu estava tendo um sonho agradável quando o som de algo que pareciam ser batidas de martelo de acordou. Depois disso, mal pude ouvir o som da terra cobrindo o caixão, por causa dos meus próprios gritos.

 

  1. “Não consigo dormir”, ela disse, deitando na cama comigo. Acordei com frio, segurando o vestido no qual ela foi enterrada.

 

  1. Estava cobrindo meu filho quando ele me diz: “Papai, vê se não têm monstros debaixo da cama.” Para agradá-lo, olhei embaixo da cama e vi ele, outro dele, embaixo da cama, olhando para mim, tremendo e murmurando: “Papai, tem alguém na minha cama.”

     

      (Encontramos essa tirinha inspirada nesse micro-conto!)

 

  1. Você chega em casa cansado depois de um longo dia de trabalho, querendo relaxar um pouco sozinho. Você vai ligar a luz, mas quando se aproxima do interruptor, já tem outra mão sobre ele.

 

  1. Não consigo me mexer, respirar, falar nem ouvir nada aqui e é tão escuro o tempo todo. Se eu soubesse que seria tão solitário assim, teria preferido ser cremado.

 

  1. Ela subiu as escadas para ver como estava o seu bebê. A janela do quarto estava aberta e a cama vazia.

 

  1. Eu nunca durmo. Mas não paro de acordar.

 

  1. Minha filha não para de chorar e gritar no meio da noite. Eu visito o túmulo dela e peço para ela parar, mas não adianta.

 

  1. Depois de trabalhar o dia todo, chego em casa e vejo minha namorada abraçada em nosso bebê. Não sei o que foi mais assustador, ver a minha namorada morta e nosso filho que nasceu morto ou saber que alguém invadiu o meu apartamento e os colocou lá.

 

  1. Tinha uma foto de mim mesmo dormindo em meu telefone. Eu moro sozinho.

Então, achou os micro-contos assustadores, perturbadores ou no mínimo curiosos? Se não o assustam, algum impacto, nem que seja de surpresa, maioria deles causa, não? O que poderia causar um efeito assim em um texto tão curto? Esse é o mecanismo da fórmula da narrativa voltada para o efeito, na qual todas as circunstâncias do texto servem para chegar ao impacto final, para aumentar esse efeito ou preparar caminho para ele.

No ensaio Filosofia da Composição, o escritor, poeta e teórico Edgar Allan Poe defende diversos aspectos narrativos, os quais podemos relacionar com a construção deste tipo de micro texto. Apesar de Poe referir-se neste ensaio principalmente ao efeito construído na poesia, suas teorias podem ser bem relacionadas com a prosa.

Começando por um ponto divergente, no qual ele defende que é um requisito absoluto que um poema (ou outra forma textual), apesar de ter que ser breve, necessita de certa duração para chegar a criar algum efeito. Porém, notamos como, apesar da extrema brevidade, os micro-contos em questão conseguem criar um efeito. Isso é resultante da relação efeito x duração, sendo que a intensidade do efeito pode ser relacionada indiretamente à duração do texto, e, algumas vezes, intensificada mais pela brevidade da narrativa, que não demora a causar um impacto final.

Poe constrói a atmosfera dos contos da mesma forma como diz, neste ensaio, construir o poema O Corvo, juntando todos os elementos com o intento de causar o efeito final. O enredo da narrativa é pensado do final para o início, de forma que tudo é direcionado ao impacto final. Nestes micro-contos, por não haver muitos elementos a serem combinados para chegar a um efeito final, podemos nos questionar: o nível de dificuldade seria maior para causar um impacto no leitor com a escrita de um conto de terror de comprimento normal (digamos, algo entre 5 a 20 páginas) ou com uma mini narrativa em duas frases?

Pode-se imaginar que a escrita de um conto longo (de tamanho relativamente comum, não um micro-conto) deve dar mais trabalho exatamente por precisar ter mais elementos a serem combinados, por necessitar de um vocabulário mais bem desenvolvido e pelo efeito final gerar mais expectativa, justamente por levar mais tempo sendo elaborado durante o processo de escrita e de leitura, já que tem mais tempo para a mente do leitor adaptar-se à atmosfera criada pela narrativa. Porém, um conto de tamanho regular tem mais espaço para desenvolver a atmosfera de mistério, não precisando, assim, condensar toda a ideia central do efeito em poucas palavras, as quais devem ser rigorosamente bem escolhidas.

Conseguinte, pode-se concluir que tanto o processo criativo de composição de um conto regular e de um micro-conto têm dificuldades diferentes, e alguns autores encontram mais facilidade para escrever um do que o outro. Talvez o fato de que existam menos micro-contos mais conhecidos – como o famoso de Hemingway: “Sapatos de bebê à venda, nunca usados” – nos leve a pensar que estes sejam mais difíceis de serem bem escritos e marcantes, pelo menos tão marcantes tanto quanto um conto regular, ainda mais quando o efeito intencionado é o de perturbar, como no caso mencionado aqui dos contos de terror.

Por isso a criação de tais micro-contos pode (e deve) seguir a linha teórica da criação do efeito defendida por Poe, e, justamente por ser um texto extremamente curto, deve ser totalmente voltado ao efeito final, já que por conter tão poucas palavras, todas elas devem servir apenas para causar tal efeito. Porém, se o autor tiver uma ideia original – e perturbadora, no caso de micro-contos de terror – e que não seja complexa por demais para ser condensada em poucas palavras, a forma de uma narrativa curta pode até auxiliar na criação de um efeito interessante.

E falando em ideias originais, leitores, alguma ideia interessante de micro-conto aí? Quem aceita o desafio de escrever a melhor micro história de terror possível, em no máximo duas frases, nos comentários – e talvez conseguir mesmo assustar com poucas palavras?

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