Pra Conhecer #3: a poesia entre a ironia e o sarcasmo de Bénédicte Houart

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A série Pra Conhecer busca dar espaço para autores incríveis mas, infelizmente, pouco lidos pelo grande público. A ideia é espalhar estas boas leituras o máximo possível, instigando todos e todas a abrirem um espacinho na lista de leituras para um/a autor/a novo/a.

Sejam escritores/as brasileiros/as ou estrangeiros/as, o importante é expandir os horizontes e embarcar na viagem que a literatura proporciona.

Nesta edição, falamos sobre Bénédicte Houart.

deus nos livre do mundo
soltou o moribundo
e livrou logo

Bénédicte Houart, nascida em Braine-le-Conte, uma pequena cidade nos arredores de Bruxelas, em 1968, é filha de pai belga e mãe portuguesa. Logo mudou-se para Portugal, onde vive até hoje. Tem formação em filosofia e foi professora de Estética na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Seu primeiro livro, Reconhecimento, foi lançado em 2005 pela Editora Cotovia – assim como os seguintes, Vida: Variações (2008) e Aluimentos (2009). Sua poesia transita entre a ironia e o sarcasmo, o cotidiano e a crítica, caracterizando-se sempre pelo impactante e inesperado dos poemas.

o meu cão parece um coelho
eu pareço uma pessoa
por vezes, raras, as coisas parecem ser o que são
há quem se dedique a descortinar
vida fora tal contradição e
no fim, morra, como todos
sem ter percebido nada afinal

é a vida, a própria vida, queira ou não, deus ou outro qualquer

Muitas de suas personagens são mulheres – mães, gordas, feias, donas de casa -, sempre inseridas em poemas que rompem com qualquer expectativa de poemas femininos ou personagens femininas ideais. Se, em grande parte das vezes, “a mulher” figura na poesia pela delicadeza – dela e do poema -, em Bénédicte a crueza das imagens e a construção estética da escrita são potentes questionadores do “feminino”. 

a pedicure disse-me que
os meus pés eram bonitos
apeteceu-me saltar-lhe
para os braços, mas
em vez disso, observei-a
não sem admiração
desconhecia que havia tantas
limas para a mesma ocasião
no fim, recusei pagar-lhe pois
o que ela havia dito
não tinha preço
falando, tirou-me uns calos que
há séculos me atormentavam

(aliás, as palavras são de graça
quanto mais beleza
a ninguém pertencem
a ninguém cabe vendê-las)

 

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

 

mãe
obesa
esfrega o corpo nas coisas
derrama gordura
e as coisas brilham
Ó mãe mãe ó mãe
deixaste as coisas brilhando
para que as reconhecêssemos e agora
escorregamos nelas todas as vezes

Bénédicte é tradutora e não mais leciona na universidade, dedicando-se à poesia.

pus-me a escrever um poema que
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe

No vídeo abaixo, Bénédicte lê um poema de seu primeiro livro, Reconhecimento:

Em 2012, foi lançado pela Editora &etc o livro “Há Dias”, de Houart e João Filipe Marques, um diálogo de imagem e texto que aborda a fragilidade da vida.

 

acho que as crianças devem ser mantidas na ignorância
de certas coisas da vida
pois não sabendo nada sabem nada e é
muito embora muito pouco pareça muitas coisas aparecem
nós já não sabemos como nada pesa tanto que
só um pequenino pode ser derrubado
e do chão vir-se com as estrelas é quando chovem
as gotas escorrem-lhe dos dedos e são as lágrimas benditas
seja maldita a nossa incompleta desolação

 

vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória

Informações sobre a autora foram retiradas das páginas Revista Modo de usar & cia e Poesia & Lda.