As 20 melhores citações de Uma Desolação, de Yasmina Reza

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Yasmina Reza é atriz, escritora, dramaturga e roteirista. Sua peça Deus da Carnificina foi adaptada para o cinema por Roman Polanski. Em Uma Desolação, Samuel é um velho amargurado e desolado que conta para seu filho, com quem tem uma relação difícil, sobre estas desolações. A princípio, o personagem pode parecer chato, mas uma leitura atenta irá captar a dureza cheia de fragilidade das falas de alguém que, em face da morte cada vez mais próxima, revê sua vida e suas relações com os outros e com o mundo.

O NotaTerapia selecionou as 20 melhores passagens do livro. Confira:

Feliz? Outro dia, em casa de René Fortuny, um imbecil disse: “O objetivo é ser feliz apesar de tudo”. Ao voltar para o carro, eu disse a Nancy: “Você já ouviu observação mais medíocre?” Ao que Nancy respondeu com finura: “Para você, qual seria o objetivo?…” Para ela a felicidade é legítima, você compreende. Ela faz parte desse tipo de pessoas para as quais a felicidade é legítima.

Meu filho, que já experimentou o gosto da ação, teme sua realização, pois não existe nada mais triste, mais sem graça que a coisa realizada.

Pois nunca desejei, veja você, conquistar as coisas para guardá-las. Nem ser o que quer que fosse para permanecer assim. Pelo contrário. Desde que me tornei alguém, precisei me desagregar. Seja apenas o próximo de si mesmo, meu filho. Só há satisfação na esperança.

(…) se nunca me opus à felicidade, quero dizer, é talvez porque é o único estado do qual não se pode escapar sem consequências. Não nos curamos de tal machucado.

A vida é o que nós queremos com impaciência.

No começo de nosso relacionamento, nos anos 50, eu achava que essa alegria era uma forma de falta de firmeza, é preciso um certo tempo para admitir que a alegria é um canto fúnebre.

Um belo dia, o homem mais distante da morte anda alegremente por uma rua de Paris, com o céu, o rio, os edifícios, as fisionomias, tudo dele, dele também o velho amigo encontrado na esquina Solférino-Université, dele, pela última vez, mas ele não o sabe, o cenário de sua vida.

Se você abre o armário embutido do banheiro de Nancy, tem a mais perfeita visão do patético humano. Nancy finge envelhecer com coragem. (…) Abra seu armário. Antro da guerra secreta que Nancy declarou contra o tempo.

Cada dia o mundo me encolherá, mas hoje é o mundo que se encolhe em mim. É dessa maneira. A morte avança pouco a pouco. Habituamo-nos a ela. Acostumamo-nos à morte. Não se fica tão descontente de manter o ritmo universal.

É preciso ser capaz de ter imaginação para sofrer.

Quando você é íntimo da música, quando a música preenche sua vida, diga-me para que servem as palavras, mesmo agradáveis, para que servem as histórias, com o que rima essa reprodução da vida sobre o papel, pela qual todos se apaixonam loucamente, e que cheira a seu trabalho, sua habilidade, e que lhe traz tão pouco sentimento de fatalidade.

“Será que envelhecer consiste em desenvolver uma paródia de si próprio?”, pergunta sua irmã querendo parecer esperta e mostrar com uma bobagem sua qualidade de igual. (…)
– Envelhecer – digo-lhe com modéstia – é se acabar com piedade.

Sempre encarei o desespero como ligado à perspectiva da existência. Descubro hoje em dia um desespero emancipado do tempo.

A morte está em nós. Ela ganha o combate progressivamente. Pouco a pouco, tudo se funde e se assemelha. A partir de uma certa idade, meu querido, tudo é a mesma coisa e nada mais serve às vezes de objetivo. E se Deus, agradeço a Ele, não me houvesse feito tão amedrontado pelo tédio, eu poderia terminar como esses velhos embrutecidos que se veem nos bancos públicos, sentados a pensar na vitória do tempo.

Eu escuto isso, Geneviève, a palavra amor, a palavra esperança, lançadas no vazio, e só tenho um único desejo, ensanguentar o planeta.

Será que lhe acontece, meu querido, em sua vida de felicidade, experimentar a irreparável solidão? No meio do parque floral de Longchamp, sob o sol poente da primavera, uma mulher com que você tem toda a afinidade pronuncia palavras que marcam como uma rachadura, e você sabe que não há nenhuma esperança de se unir novamente, que a alma vive só e que nada podemos fazer pelo outro.

Não se pode traduzir o que se experimenta, pois toda expressão já aconteceu em outro tempo, e tudo que você consegue dizer é vão, superado e falso.

Agitar a via. Isso, sim, eu fiz. Mas, veja, não há lei para esse empreendimento. E a vida, meu rapaz, não se deixa agitar com facilidade. Os homens aspiram ao conforto. Agitar a vida é um caminho autenticamente desesperador.

Estamos sós. Meu filho. Numa solidão imensa. Total. E quase não há ligação de uma solidão com outra. A solidão é longa. As alegrias que nos ligam são inatingíveis.

Falta de humildade. É possível. Mas por que deveria eu me mostrar humilde? Diante do quê, diante de quem?
Aceitar a vida no que ela nos oferece de bom, tinha dito o imbecil. Em que do que ela me ofereceu, cretino, eu não fui apanhado? O único real está em si. O único real, Arthur, está guardado em meus desejos. O mundo nada oferece.