A poesia como um Copo de Cianureto, uma entrevista com Johnathan Bertsch

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Johnathan Bertsch é um escritor-náufrago. Ou um náufrago-escritor? Não se pode saber. Poeta e membro imortal da Academia de Letras do Brasil Seccional Jaraguá do Sul, o autor lançou Não preciso falar de amor em 2015. Agora está agora lançando pela NotaTerapia Editora seu mais novo livro de poesia Um Copo de Cianureto.  A poesia para ele é, ao mesmo tempo, a salvação e o suicídio: um tiro para o fim na busca de alguma salvação. Em seus poemas, a força da poesia, na busca do amor, de alguém, de um nome (do que mesmo?) tem a mesma força de uma certeza, bastante segura, de que estas palavras não podem, sequer salvar.

O NotaTerapia fez uma breve entrevista com o autor. Confira:

12998771_670679796406248_2827019488510745079_nNotaTerapia – Em poucas linhas, o que é o seu livro Um Copo de Cianureto?

Johnathan Bertsch – Definir-ia-se em uma amálgama de sentimentos, dúvidas e incoerências, se fosse autobiográfico por completo; Mas é poesia, portanto é um desabafo, um confronto do medo cotidiano com meus próprios ideais.

N- Quando você começou a escrever e quais as motivações que te levaram a escrever seu livro?

JB – Aos doze anos sofri uma forte agressão resultante em lesão cerebral. Minhas memórias foram apagadas por completo e a maneira mais eficiente e rápida para a regeneração do meu “eu” foi a leitura. A fisioterapia mudou para hábito. De hábito virou vício. E do vício transformou-se em dependência. Depois disso, escrever, é um mecanismo de defesa, uma maneira de coexistir além do meu tempo. Escrevi esse livro porque simplesmente ele precisava ser escrito.

N – Qual você acha que é e deveria ser o papel da literatura e das artes no mundo de hoje?

JB- A literatura, e artes no geral, são superestimadas nos círculos sociais. As referências que possuímos são de grandes gênios da humanidade, seres intocáveis, dos quais jamais poderemos nos igualar. Não há a popularização dessa cultura. É chegada a hora de notar que aquele seu amigo que invade os palcos do teatro atua muito bem. Que sua prima distante, aquela que publicou um livro de contos, é muito habilidosa. Que aquele cara que trabalha no mesmo escritório que você faz pinturas magníficas nas horas vagas. É chegada a hora de reconhecer os verdadeiros artistas que nos rodeia por entre essa sociedade contemporânea.

N- Quais os(as) escritores (as) que te marcaram e influenciaram tanto na vida quanto na feitura de Um Copo de Cianureto?

JB – Charles Baudelaire é um dos nomes que me assombrou por anos. Augusto dos Anjos, poeta parnasiano e patrono da minha cadeira na Academia, também tem sua participação em minhas características. Por fim, meu maior ídolo, Fernando Pessoa e todos seus heterônimos são minhas principais referências na literatura mundial.

N – Vejo que Um Copo de Cianureto é o livro de alguém que se afoga, de que encontra no copo sua única saída, mas que, ao mesmo tempo, também encontra nos pequenos instantes da vida algumas outras saídas. Seria, então, para você o mundo uma espécie de grande copo de cianureto?

JB -Não deixa de ser. A vida, como no livro Um Copo de Cianureto, são feitos de escolhas. Oras simples, oras difíceis, mas ainda assim escolhas. Nessa geração que posta diariamente nas redes sociais o quão são “felizes”, na qual medos e angústias não são aceitas, esse livro é um “Rivotril” para as mentes mais passivas ao conhecimento e a solidez dos sentimentos. Somos humanos, não príncipes, muito bem lembrado no Poema em linha reta de Fernando Pessoa.

N – A sua poesia parece estar num abismo de linguagem, quase que em um momento limite em que ela quase para de significar e passa a simplesmente ser uma espécie de sensação. O que seria, em Um Copo de Cianureto, essa sensação? Porque caminhos ela passa a ter se tornar palavra?

JB – Esse sempre foi o meu intuito; Causar, dividir e relatar sensações. Fugindo dos estereótipos literários, mais conhecidos como “best-sellers de aeroporto”, a minha poesia não é convencional, um pouco excêntrica e muito egocêntrica. Desse modo ela me completa. Primeiramente sinto, vivencio e sufoco meus sentimentos, e como consequência, vão parar no papel.