As Notas Periféricas de um “miserável iluminado”, entrevista com Douglas Zilio Coutinho

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Uma literatura que precisa gritar. Que vem da periferia com a mesma força que um vulcão e, sem ignorar a grande cidade, busca enfrenta-la não para adentra-la, mas para mostrar que força e potência está em todo lugar. Douglas Zílio Coutinho, em Notas Periféricas, anota a rotina de um ser miserável e iluminado, como todos os grandes poetas da geração beat, mas ao mesmo tempo perdido nas pequenas vontades como um Bukowski. No entanto, Douglas é brasileiro, não consegue entender a linha como linha, mas como um caminho tortuoso que leva sempre a lugar nenhum, às vezes, leva a um bar, a uma companhia.

Notas Periféricas é um dos livros mais instigantes que lemos ultimamente. Para entender um pouco mais desse mundo urgente que salta das páginas de Douglas, fizemos uma breve entrevista com o autor que, em breve, será lançado pela NotaTerapia Editora. Para conhecer o trabalho de Douglas, acesse sua página no facebook: https://www.facebook.com/poeticasuja/

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Confira a entrevista:

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NotaTerapia –  Em poucas linhas, o que é o seu livro Notas Periféricas? 

É o diário de um miserável iluminado, um pretensioso jovem que nunca escreveu algo relevante, porém se considera o último grande gênio da literatura. É o relato do choque causado entre uma busca desesperada pela autoafirmação e a dura realidade de uma vida distante da segurança familiar, sendo ela permeada de lamentações, relacionamentos passageiros, fome, despejo, etc.

N – Quando você começou a escrever e quais as motivações que te levaram a escrever seu livro?

O desespero. A incapacidade de continuar prendendo o berro que, há anos, se formava dentro deste peito ferido pela vida, mas que ainda insiste em bater. As minhas primeiras linhas foram escritas quando criança, numa época em que o meu passatempo era criar mundos feéricos. Com o tempo – e a descoberta do desamor, das sensíveis relações familiares e do doce veneno de algumas bucetas – o mundo fantasioso fechou as suas portas, e o que restou foi uma sociedade decadente repleta de indivíduos que dariam os dois braços para devorar apenas um único braço de outra pessoa.

N – Qual você acha que é e deveria ser o papel da literatura e das artes no mundo de hoje?

A arte que me alcança é aquela que agarra aquilo que o Homem é, e o expõe de tal maneira que se torna impossível fingir cegueira. Bocejo diante do “panfletarismo literário” que tem atraído os holofotes, nos últimos anos, resumindo a experiência literária em gritos marcados por uma retórica sensível, porém superficial, vazia. Eu sou arrebatado pela literatura que exorciza os nossos demônios e ilumina os becos da nossa alma, que guerreia contra o fatídico evento que Milan Kundera chamou de “o esquecimento do ser”.

N – Quais os(as) escritores (as) que te marcaram e influenciaram tanto na vida quanto na feitura de Notas Periféricas?

O ousado Henry Miller, o desiludido Emil Cioran, o perspicaz Schopenhauer, o conciso Nietzsche, o ríspido Ernest Hemingway, os diálogos teológicos de John Fante, o fatalismo russo de Charles Bukowski, a descrença na juventude de Nelson Rodrigues, a rebeldia de Antonio Fraga, o corpo que fala de Violette Leduc e Ana Cristina Cesar, dentre outros.

N – Notas Periféricas, me parece, é ao mesmo tempo uma realidade e uma utopia. As noites são, ao mesmo tempo que reais, do mundo da vida, encantadas pelas palavras dos grandes mestres da literatura. Como é, pensando no título do livro, o encanto desta linguagem que ao mesmo tempo que é periferia também inventa uma outra periferia – uma periferia literária?

Será o sertão de Graciliano Ramos “real” ou “encantado”? O que diria um sertanejo diante das descrições de Vidas Secas? Concordaria ou as julgaria surreais? Quando questionado acerca do regionalismo, João Cabral de Melo Neto respondeu que a essência do movimento, que duelava com o centro, era o “problema do homem” e “a dor do homem, a alegria, as suas lutas, e as suas belezas”. Que seja uma “periferia literária”, então, desde que permaneça trazendo à tona os duelos internos que são inerentes a todas as criaturas. Duelos que, apesar de narrados numa região, são universais. “O sertão é em toda parte”, afinal.

N- Existe uma diferença entre periferia e margem. Sua obra, me parece, de margem, apesar de não ser necessariamente marginal. No entanto, entre margem e periferia existe uma convergência: a relação com o centro. Como se dá essa diferença entre a margem e o centro, ou melhor, como uma escrita que trafega pela contracultura – ainda mais sendo periférica – encara este gigantesco e inescapável centro?

Se para Michel Foucault a literatura, assim como a loucura, é uma transgressão da linguagem; a margem e a periferia são desdobramentos de diferentes centros. Se o marginal é aquele que difere do cidadão estável, da “gente de bem”, pelos seus tormentos e comportamentos; o periférico passa a ser moldado pela negação do centro – “você é aquilo que eu não sou, e eu sou aquilo que possuo”. Mas, mesmo entre os periféricos, a diferença se faz presente seja na maneira de pensar ou agir, impossibilitando um discurso que fale pelos outros, mesmo que vizinhos. Numa conversa com o filósofo Gilles Deleuze, Foucault dá a entender que “falar pelo outro” também é silenciá-lo, e assim reforçar as estruturas de exclusões. Não quero que a minha escrita seja um megafone que faz ecoar o lamento de todos os excluídos: eu quero que as minhas palavras alcancem o centro que silencia para que, uma vez atingido, ele afrouxe a mão que tapa a boca de todos, permitindo que eles falem por conta própria.