20 incríveis ilustrações baseadas nas melhores frases de Cem Anos de Solidão

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Cem Anos de Solidão é daqueles livros que já nascem clássicos. Suas múltiplas faces e seu encantamento vem arrebatando uma legião de leitores deste seu lançamento até agora. O NotaTerapia atestou isso quando, algum tempo atrás lançamos uma série chamada Dicas de Leitura e optamos por começar com esta incrível obra de Gabriel Garcia Marquez. A matéria consistia em recolher opiniões de leitores para saber como o livro havia arrebatado cada um e, reunindo essas opiniões convencer, talvez, outros leitores a adentrar no universo da obra. (Para conferir a matéria, basta clicar aqui!)

Entre os comentários, muitos se destacaram, mas um deles nos apresentou a um projeto incrível. Trata-se do ilustrador paulista Bruno Alves que teve ideia incrível: o Projeto Cem Anos de Solidão. No projeto, Bruno ilustra os melhores trechos da obra de Gabo, para totalizar, ao fim, cem ilustração: uma para cada ano de solidão. Este projeto belíssimo, além de criar uma zona de contato entre as artes visuais e a literatura, atualiza a obra a partir da visão singular de um artista. Para saber mais sobre Bruno Alves, mas seguir suas páginas:

Portfólio online: https://www.behance.net/BA_desenhos
Blog: https://badesenhos.blogspot.com.br/
Pagina(Facebook):https://www.facebook.com/bruno.alves.niizuma

O NotaTerapia separou as 10 melhores ilustrações com os 10 melhores trechos da obra. Confira:

“O Coronel Aureliano Buendía dispunha então de tempo para enviar de quinze em quinze dias um informe pormenorizado a Macondo. Mas apenas uma vez, quase oito meses depois de ter partido, Úrsula lhe escreveu. Um emissário especial trouxe em casa um envelope lacrado, dentro do qual havia um papel escrito com a caligrafia preciosa do coronel: Tomem muito cuidado com papai porque ele vai morrer. Úrsula se alarmou. “Se Aureliano está dizendo, Aureliano sabe”,

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“Passou seis horas examinando as coisas, tentando encontrar uma diferença do aspecto que tiveram no dia anterior, procurando descobrir nelas alguma mudança que revelasse o transcurso do tempo. Ficou toda a noite na cama com os olhos abertos, chamando Prudencio Aguilar, Melquíades, todos os mortos, para que viessem compartilhar do seu desgosto. Mas ninguém acudiu. Na sexta-feira, antes que todos se levantassem, voltou a observar a aparência da natureza, que não teve a menor dúvida de que continuava sendo segunda-feira. Então agarrou a tranca de uma porta e com a violência selvagem da sua força descomunal espedaçou, até transformar em poeira, os aparelhos de alquimia, o gabinete de daguerreotipia, a oficina de ourivesaria, gritando como um endemoniado num idioma altissonante e fluido, mas completamente incompreensível. Dispunha-se a arrasar com o resto da casa, quando Aureliano pediu ajuda aos vizinhos. Foram necessários dez homens para subjugá-lo, quatorze para amarrá-lo, vinte para arrastá-lo até o castanheiro do quintal, onde o deixaram amarrado, ladrando em língua estranha, e deitando espuma verde pela boca. Quando Úrsula e Amaranta chegaram, ainda estava atado pelos pés e pelas mãos ao tronco do castanheiro, ensopado de chuva e num estado de inocência total. Falaram com ele e ele olhou para elas sem reconhecê-las, e lhes disse alguma coisa incompreensível. Úrsula lhe soltou as munhecas e os tornozelos, ulcerados pela pressão das cordas, e o deixou amarrado apenas pela cintura. Mais tarde construíram uma pequena coberta de sapé para protegê-lo do sol e da chuva.”

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“Rebeca estava tão impaciente diante da proximidade do casamento que quis preparar o vestido com mais antecipação que havia previsto Amaranta. Ao abrir a cômoda e desembrulhar primeiro os papéis e depois o pano protetor, encontrou o cetim do vestido e a renda do véu e até a coroa de flor laranjeira pulverizados pelas traças. Embora estivesse certa de ter colocado no embrulho dois punhados de bolinhas de naftalina, o desastre parecia tão acidental que não se atreveu a culpar Amaranta.”

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“No fim de fevereiro, chegou a Macondo uma anciã de aspecto cinzento, montada num burro carregado de vassouras. Parecia tão inofensiva que as patrulhas de vigilância deixaram-na passar sem perguntas, como mais um dos vendedores que freqüentemente chegavam dos povoados do pantanal. Foi diretamente ao quartel. Arcadio a recebeu no local onde antes esteve a sala de aula, e que então estava transformada numa espécie de acampamento de retaguarda, com redes enroladas e penduradas nas argolas e esteiras amontoadas nos cantos, e fuzis e carabinas e até espingardas de caça jogados pelo chão. A anciã se endireitou numa saudação militar antes de se identificar: — Sou o Coronel Gregorio Stevenson”

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“José Arcadio Buendía conseguiu por fim o que procurava: conectou a uma bailarina de corda o mecanismo do relógio, e o brinquedo dançou sem interrupção, ao compasso da sua própria música, durante três dias. Aquela descoberta o excitou muito mais do que qualquer das suas empresas descabeladas. Não voltou a comer. Não voltou a dormir. Sem a vigilância e os cuidados de Úrsula, deixou-se arrastar pela sua imaginação até um estado de delírio perpétuo do qual não voltou a se recuperar. Passava as noites andando no quarto, pensando em voz alta, procurando a maneira de aplicar os princípios do pêndulo aos carros de boi, às grades do arado, a tudo o que fosse útil posto em movimento. Cansou-o tanto a febre da insônia que certa madrugada não pôde reconhecer o ancião de cabeça branca e gestos incertos que entrou no seu quarto. Era Prudencio Aguilar. Quando por fim o identificou, assombrado de que também os mortos envelhecessem, José Arcadio Buendía sentiu-se abalado pela nostalgia. “Prudencio”, como é que você veio aqui tão longe!” Após muitos anos de morte, era tão imensa a saudade dos vivos, tão premente a necessidade de companhia, tão aterradora a proximidade da outra morte que existia dentro da morte, que Prudêncio Aguilar tinha acabado por amar o pior dos seus inimigos .”

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“Úrsula ordenou um luto de portas e janelas fechadas, sem entrada nem saída para ninguém a não ser para assuntos indispensáveis; proibiu falar em voz alta durante um ano, e pôs o daguerreótipo de Remedios no lugar em que se velou o cadáver, com uma fita negra em diagonal e uma lâmpada de azeite acesa para sempre. As gerações futuras, que nunca deixaram apagar a lâmpada, haveriam de se desconcertar diante daquela menina de saia pregueada, botinhas brancas e laço de organdi na cabeça, que não conseguiam fazer coincidir com a imagem acadêmica de uma bisavó. Amaranta tomou conta de Aureliano José. Adotou-o como um filho que haveria de compartilhar da sua solidão e aliviá-la do ópio involuntário jogaram as suas súplicas desatinadas no café de Remedios. Pietro Crespi entrava na ponta dos pés ao anoitecer, com a fita negra no chapéu, e fazia uma visita silenciosa a uma Rebeca que parecia perder o sangue dentro do vestido negro com mangas até os punhos. Teria sido tão irreverente a simples ideia de pensar em nova data para o casamento que o noivado se converteu numa relação eterna, um amor de cansaço em que ninguém voltou a pensar, como se os apaixonados que em outros tempos estragavam as lâmpadas para se beijar tivessem sido abandonados ao arbítrio da morte. Perdido o rumo, completamente desmoralizada, Rebeca voltou a comer terra”

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“Todas as tardes era visto voltando a cavalo, com os seus cães monteses e a sua espingarda de dois canos, e uma fileira de coelhos pendurados na sela. Uma tarde de setembro, diante da ameaça de uma tempestade, voltou para casa mais cedo que de costume. Cumprimentou Rebeca na copa, amarrou os cachorros no quintal, pendurou os coelhos na cozinha, para salgá-los mais tarde, e foi para o quarto trocar de roupa. Rebeca declarou depois que quando o marido entrou no quarto, ela se fechou no banheiro e não percebeu nada. Era uma versão difícil de acreditar, mas não havia outra mais verossímil, e ninguém pôde conceber um motivo para que Rebeca assassinasse o homem que a tinha feito feliz. Este foi talvez o único mistério que nunca se esclareceu em Macondo. Logo que José Arcadio fechou a porta do quarto, o estampido de um tiro retumbou na casa. Um fio de sangue passou por debaixo da porta, atravessou a sala, saiu para a rua, seguiu reto pelas calçadas irregulares, desceu degraus e subiu pequenos muros, passou de largo pela Rua dos Turcos, dobrou uma esquina à direita e outra à esquerda, virou em ângulo reto diante da casa dos Buendía, passou por debaixo da porta fechada, atravessou a sala de visitas colado às paredes para não manchar os tapetes, continuou pela outra sala, evitou em curva aberta a mesa da copa, avançou pela varanda das begônias e passou sem ser visto por debaixo da cadeira de Amaranta, que dava uma aula de Aritmética a Aureliano José, e se meteu pela despensa e apareceu na cozinha onde Úrsula se dispunha a partir trinta e seis ovos para o pão. — Ave Maria Puríssima! — gritou Úrsula.”

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“Antes que o levassem ao paredão, o Padre Nicanor tentou assisti-lo. “Não tenho nada de que me arrepender”, disse Arcadio, e se pôs às ordens do pelotão depois de tomar uma xícara de café preto. O chefe do pelotão, especialista em execuções sumárias, tinha um nome que era muito mais do que uma coincidência: Capitão Roque Carnicero. A caminho do cemitério, sob uma chuvinha insistente, Arcadio observou que no horizonte despontava uma quarta-feira radiante. A tristeza se esvanecia com a névoa e deixava no seu lugar uma imensa curiosidade. Só quando lhe ordenaram ficar de costas para o muro foi que Arcadio viu Rebeca, com o cabelo molhado e um vestido de flores rosadas, abrindo a casa de par em par. Fez um esforço para que o reconhecesse. Com efeito, Rebeca olhou casualmente para o muro e ficou paralisada de susto,só podendo reagir para fazer a Arcadio um sinal de adeus com a mão. Arcadio respondeu da mesma forma. Nesse instante, apontaram para ele as bocas fumegantes dos fuzis, e ele ouviu letra por letra as encíclicas cantadas de Melquíades, e sentiu os passos perdidos de Santa Sofia de la Piedad, virgem, na sala de aula, e experimentou no nariz a mesma dureza de gelo que lhe havia chamado a atenção nas fossas nasais do cadáver de Remedios. “Ah, caralho!”, chegou a pensar, “me esqueci de dizer que se nascesse mulher pusessem Remedios.” Então, numa só pontada dilacerante, voltou a sentir todo o terror que o atormentara na vida. O capitão deu a ordem de fogo. Arcadio mal teve tempo de estufar o peito e levantar a cabeça, sem entender de onde fluía o líquido ardente que lhe queimava as coxas. — Cornos! — gritou. — Viva o Partido Liberal!”

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“Era um homem decrépito. Embora a sua voz estivesse também oscilante pela incerteza e as suas mãos parecessem duvidar da existência das coisas, era evidente que vinha do mundo onde os homens ainda podiam dormir e recordar. José Arcadio Buendía encontrou-o sentado na sala, abanando-se com um remendado chapéu negro, enquanto lia com atenção compassiva os letreiros pregados na parede. Cumprimentou-o com amplas demonstrações de afeto, temendo tê-lo conhecido em outra época e agora não se lembrar mais dele. Mas o visitante percebeu a falsidade. Sentiu-se esquecido, não com o esquecimento remediável do coração, mas com outro esquecimento mais cruel e irrevogável que ele conhecia muito bem, porque era o esquecimento da morte. Então entendeu. Abriu a mala entupida de objetos indecifráveis, e dentre eles tirou uma maleta com muitos frascos. Deu para beber a José Arcadio Buendía uma substância de cor suave, e a luz se fez na sua memória. Seus olhos se umedeceram de pranto, antes de ver-se a si mesmo numa sala absurda onde os objetos estavam marcados, e antes de envergonhar-se das solenes bobagens escritas nas paredes, e ainda antes de reconhecer o recém-chegado numa deslumbrante explosão de alegria. Era Melquíades.”

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“Rebeca esperava o amor às quatro da tarde, bordando junto à janela. Sabia que a mula do correio não chegava senão de quinze em quinze dias, mas a esperava sempre, convencida de que ia chegar um dia qualquer por engano. Aconteceu exatamente o contrário: uma vez a mula não chegou na data prevista. Louca de desespero, Rebeca se levantou à meia noite e comeu punhados de terra no jardim, com avidez suicida, chorando de dor e fúria, mastigando minhocas macias e espedaçando os dentes nas cascas de caracóis. Vomitou até o amanhecer. Afundou num estado de prostração febril, perdeu a consciência e o coração se abriu num delírio sem pudor. Ùrsula, escandalizada, forçou a fechadura do baú e encontrou no fundo, atada com fitas cor-de-rosa, as dezesseis cartas perfumadas e os esqueletos de folhas e pétalas conservadas em livros antigos e as borboletas que ao toca-las se converteram em pó.”

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