Leituras #32: Cobra Norato, de Raul Bopp

Destaque, Leituras, Poesia, Poesia Brasileira

Autor: Raul Bopp
Editora: José Olympio, 2016
Páginas: 96

Acordo
A lua nasceu com olheiras
O silêncio dói dentro do mato

Abriram-se as estrelas
As águas grandes se encolheram com sono

A noite cansada parou .

Raul Bopp, Cobra Norato

O modernismo brasileiro é conhecido como o lugar da abertura para a liberdade poética. Da palavra sendo palavra, mas também sendo muito mais que “apenas palavra”. A antropofagia de Oswald é um projeto de vida. Dentro do modernismo brasileiro, muitas vozes misturavam-se refletindo um amálgama de formas entre o indianismo, o africanismo, a cultura popular, como também, a forma veloz das máquinas industriais. Dentre eles, Raul Bopp foi um dos principais modernistas da primeira geração do Brasil e seu poema, Cobra Norato, até hoje é considerado um dos marcos de nossa poesia pela capacidade de, ao mesmo tempo, apresentar uma linguagem corrente, moderna, do cotidiano e incorporar uma linguagem das matas, do profundo interior do Brasil. Baseado em uma lenda nacional, Cobra Norato é um poema que reflete as tensões da nossa terra, da nossa cidade e da maneira que entendemos as coisas do mundo.

Cobra Norato conta a história  de um “eu”, de um poeta, que encarna o espírito de uma cobra lendária do folclore nacional e embarca pela Amazônia em aventuras. O drama épico, ligado à mitologia do norte do país, incorpora, ao mesmo tempo, a estrutura do modernismo, como os versos livres, uso do folclore e da fala regional, como no exemplo:

Ando com uma jurumenha
que faz um doizinho na gente
e mexe com o sangue devagarinho

Dividido em duas partes, a obra estabelece uma duplicidade: na primeira parte, temos um país industrial e urbano e um segundo que fala do Brasil dos interiores. A obra foi concebida como uma história para criança, embora tal limite não seja possível ser identificado no modernismo já que todas as obras buscam uma ideia de “jogo da língua”. Segundo o próprio Bopp, Cobra Norato representa a tragédia das febres, a maleita “cocaína amazônica”, quando ouviu o mato e as estrelas conversando em voz baixa”

É possível destacar também, uma ideia de “mito de viagem”, algo como uma road story nos interiores ou até uma semelhança (em sua total diferença) com o Viagens a Minha Terra, de Almeida Garret. A semelhança está em que viagens pelas viagens dos interiores revelariam “a verdade” de um país, enquanto os modernistas não buscavam verdades, mas apena um traço do que se poderia chamar de “povo”.

Para finalizar, destaco um trecho que considero um dos mais bonitos da literatura brasileira:

Quero levar minha noiva
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor

Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém
Querzinho de ficar junto
Quando a gente quer bem bem

Leia as melhores frases da obra:
http://notaterapia.com.br/2015/11/15/os-6-melhores-trechos-de-cobra-norato-de-raul-bopp/

Foto de capa: Desbravando Mundos