Os Lobos Dentro das (nossas) Paredes

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“Lucy escutou ruídos. Os ruídos estavam vindo de dentro das paredes.”

Não é segredo que Neil Gaiman sabe fazer uma história grande em poucas páginas, e Os Lobos Dentro das Paredes é um exemplo bem curioso disso. Considerado infantil, o hq apresenta uma característica muito semelhante aos contos de fadas, sendo também admitido como uma fábula moderna. Dessa forma, tal como os contos de fadas, esta obra apresenta seus aspectos de terror, restituindo de forma simples e sutil o teor de contos antigos.

Ninguém acredita em Lucy a princípio, ao dizer que ouvia ruídos dentro das paredes de casa. Todo mundo insistia em lhe responder: “Você sabe o que dizem… Se os lobos saírem de dentro da parede está tudo acabado.” E isso a incomodava bastante, confiando sua revolta a seu porquinho de pelúcia. Só depois que de fato, lobos saíram das paredes e tomaram a casa, foi que obviamente acreditaram e passaram a morar no jardim da casa, como refúgio. Depois de lembrar que seu porquinho havia ficado para trás, na casa, e pensar que os lobos “poderiam fazer coisas terríveis a ele”, foi que Lucy resolveu voltar e resgatá-lo.

 “Então Lucy rastejou pelo jardim, mais silenciosa que qualquer camundongo. Ela deslizou pelos degraus, passou pela porta dos fundos e entrou na casa.” Para escapar de um lobo que sentira sua presença, ela teve de se esgueirar para dentro de uma parede, onde os lobos vieram, e pensou que não era um lugar tão ruim para se ficar. Ela resolve então voltar ao jardim e chamar sua família para morar dentro das paredes; eles se assustam a princípio, mas aceitam depois. Todos entram e rastejam para dentro das paredes, e de lá presenciam os lobos numa festa, comendo geleia e passando as sobras pelas paredes, ouvindo música e dançando, jogando o videogame do irmão novo e batendo todos os recordes, subindo as escadas e descendo pelo corrimão, e tocando a segunda melhor tuba do pai. Todos da família reclamam e ficam furiosos. No mesmo momento todos saem gritando de dentro das paredes, e os lobos se assustam dizendo “Quando as pessoas saem de dentro das paredes está tudo acabado!”

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Eles, então, retomam a casa e tudo volta ao normal… Até que Lucy outra vez ouve algo: um elefante tentando não respirar, e pede a opinião do porquinho se devia contar aos pais ou não. Ele finalmente responde: “Eu tenho certeza de que eles logo descobrirão”.

Também como um conto de fada, o livro possibilita muitas interpretações. Se analisarmos sendo de acordo com a sociedade em geral, podemos enxergar a história como uma constante tomada do poder: estamos sob o controle de poderes e rapidamente nos acostumamos com o sistema, às vezes nos revoltamos e conseguimos o que é nosso de volta. Além disso, pode ser questionado como um acréscimo por quê os lobos fizeram isso. Onde eles moravam antes? E para onde foram? Há uma possibilidade de terem ido para o jardim e, se não tivesse a menção de que elefantes estariam pela casa, a história se repetiria. Há também o modo sentimental e introspectivo de ver toda a trama da mesma forma: as coisas se mostram sob nosso poder, perdemos e, às vezes retomamos (o caso da família), às vezes não conseguimos de volta (o caso dos lobos); no entanto uma questão mais introspectiva é que, tudo que ocorre na casa, seria na verdade uma analogia aos problemas da vida de cada pessoa.

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*A saída dos lobos: o conhecimento de um novo problema;

*a rendição ao se mudar para o jardim: o sentimento de incapacidade diante do problema;

*a volta e retomada da casa: conseguir encarar os problemas e vencê-los… Mas, sabendo que poderão haver outros e estar sempre preparado, dando atenção aos avisos à sua volta (à Lucy).

Os pais e o irmão da garota também são interessantes e acrescentam à “analogia da introspecção” que, apesar de terem ciência do que acontece quando lobos saem das paredes (“está tudo acabado”, ou seja, a aparição de um grande problema) eles preferem acreditar que isso nunca iria acontecer, porque acham que são uma exceção. E é exatamente isso, muitas vezes nos achamos uma exceção – os problemas grandes nunca vão nos atingir – então ficamos, de certa forma, alienados e relaxados.

 Apesar de ser uma história curta e de leitura dinâmica que pôde ser resumida aqui em poucas linhas, vale a pena dar uma conferida nos desenhos de Dave McKean cubista-expressionista que são sensacionais, com até mesmo algumas mensagens ocultas não difíceis de identificar, sem falar, claro, na história em si.

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