Leituras #38: Poema Sujo, De Ferreira Gullar

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Autor: Ferreira Gullar
Editora: Civilização Brasileira, 1977
Páginas: 104

O que torna uma obra um clássico? Será o tempo, a academia, os leitores ou ela própria, em si, aos poucos, que envelhece como quem acabou de nasce ou, já ao nascer, parece ter muitos e muitos anos. O poema, enquanto santidade, não pode ser clássico. Para a eternidade é preciso de algum ruído, de alguma sujeira, de algo que não se junte exatamente a esse tempo, mas que lance respostas sobre o passado e perguntas para o futuro. Ouso dizer que este é o caso de Poema Sujo, de Ferreira Gullar.

Poema Sujo é um longo poema do poeta pós-moderno brasileiro escrito em 1975, em Buenos Aires, durante seu exílio nos períodos da ditadura militar. A obra trata de diversos temas relacionados à vida moderna, às injustiças da vida, a condição humana, enquanto corpo-matéria e corpo-desejo, como também faz um relato-poema dos tempos em que Gullar vivia em São Luiz do Maranhão, observando a vida pobre e mansa dos moradores das palafitas, construções de madeira imersas na lama dos rios e mangues. Percebe-se, ao fim, que o poeta consegue nos fazer uma espécie de geografia aérea ou um retrato pulsante de um período, assim como de uma parcela do homem moderno, principalmente o brasileiro com seus consensos e dissensos.

Logo no começo da obra, Gullar faz um apagamento do nome, aquilo que nos dá títulos e amarras, dizendo-nos que é preciso se voltar contra esse estigma do qual não escolhemos, mas fomos escolhidos. Assim, desnomeado, temos diante de nós aquilo que aparece, aquilo que sob as vistas, nossos corpos como matéria viva:

Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas,
flexível armação que me sustenta no espaço (…)
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras

Ou, como o próprio diz: “a delícia do próprio corpo no corpo.” Assim, a obra vai se espalhando para as observações e experiências do poeta e seu traçado do mundo que vê o dia, que vê a noite, que vê os corpos se movendo na cidade e as histórias se acumulando. Observa, principalmente, a vida dos pobres que vivem nos subúrbios de São Luiz e trabalham nas fábricas, pobres operários sem vida, com uma ritmo pequeno de um tempo que inexiste como trajetória, mas apenas como sobrevivência:

 Na quitanda
o tempo não flui
antes se amontoa (…)
Mas nada disso se percebe
voando sobre a cidade a 900 Km por hora

Essa questão relacionada ao tempo é particularmente curiosa na medida em que se pode dizer que existem temporalidades imaginadas, ou seja, aquelas construídas pela a História, pela tradição e pelo pensamento e aquela experienciada pelos nossos corpos lançados no mundo. Isto, de certa forma, pode ser ainda minimizado para as experiências temporais individuais, diminutas, subjetivas. De certa forma, o tempo nos individualiza e nos dá um caos interior não compartilhável.

E desta maneira seguirá a potente obra de Ferreira Gullar. O Poema Sujo nada mais é do que o relato violento e sexualizado de seu corpo colocado no mundo em confronto com outros corpos. Desta fricção de que é feita a poesia nasce a sujeira, como se fôssemos todos maculados por estarmos sempre diante da impureza do outro. A impossibilidade afetiva, o impulso contra a opressão estatal e todas as sujeiras, no entanto, podem nos santificar, nos salvar, mesmo que de uma forma tresloucada.

Pode-se dizer que Poema Sujo ainda hoje é um clássico porque nem a academia nem as instituições conseguiram limpar o poema. A assepsia de nosso mundo perde, todos os dias, para a sujeira do poema sujo.

Postado originalmente no Indique Um Livro