Leituras #40: Coração de Aço, de Brandon Sanderson

Destaque, Leituras, Matérias Literárias, Romance

Autor: Brandon Sanderson
Editora: Aleph, 2016

Considerações morais haviam parado de me incomodar anos atrás. Quem tinha tempo para moral num mundo como este?

“Dê poder a uma pessoa e descubra quem ela realmente é.” Esta parece ter sido a máxima que Brandon Sanderson usou para dar o pontapé inicial da sua obra Coração de Aço. Nela, os poderes dos homens servem não como potência, mas como forma de organização social: você mostra o seu poder e, a partir disso, dizemos em que lugar na sociedade você está. Esta afirmação, absolutamente realista, no entanto, ganha outros contornos no livro, afinal esses poderes são reais e o mundo, este que conhecemos, foi absolutamente destruído por eles.

Coração de Aço, de Brandon Sanderson, é uma incrível aventura que inverte a lógica dos super-heróis: neste mundo, aqueles que se descobrem com poderes tornam-se vilões e dominam as cidades, escravizando os povos e causando dor e sofrimento. Nova Chicago é uma desses lugares. Dominada por Coração de Aço, a cidade vive na escuridão por conta de outro desses vilões – chamados de Épicos – Punho da Noite. No entanto, David, um jovem rapaz que teve seu pai morto por Coração de Aço resolve vingá-lo e, em seus estudos, encontra um grupo de resistências: Os Executores. Ao lado deles, David vai em busca de sua missão final.

A sacada de Sanderson, na obra, é conseguir em uma obra de aventura, construir uma espécie de metáfora, de materialização em livro, de uma configuração de mundo tal como ele nos é apresentado. A cidade de Nova Chicago é de aço, mas nossas cidades não seriam também? Os líderes dominam a máquina do mundo fazendo o que bem entendem com seus cidadãos – não seria nosso mundo assim? Os homens se escondem pelas cavernas, pelo submundo por onde o poder se instaura de outra forma com outras dinâmicas em que, apesar da total opressão, ainda assim os pequenos poderes ainda mandam. Alguma diferença?

A todo instante, estas questões submergiam no livro, como neste reflexão de David:

Eles se surpreendiam com a desumanidade absoluta que alguns Épicos manifestavam. Será que os Épicos matavam porque Calamidade tinha escolhido – por qualquer motivo – apenas pessoas horríveis para ganhar poderes? Ou matavam porque poderes incríveis como esses deturpavam uma pessoa, tornando-a irresponsável?

No entanto, Coração de Aço não se faz apenas das questões entre o nosso e aquele mundo. Trata-se de uma intensa aventura entre heróis e vilões, em ritmo alucinante e máquinas que descobrimos serem possíveis de existir. Os épicos, apesar de poderosos, possuem uma única fraqueza e David nos seus longos anos em busca de sua vingança mapeou passo a passo cada um delas. Assim, uma guerra final será travada entre os Executores e Coração de Aço. O que poucos sabem é que…a diferença entre homens e Épicos pode não ser tão grande assim. Afinal o mundo, no fim das contas, é sempre muito maior que a imaginação:

Há coisas maiores que os Épicos, pensei. Há vida, a amor e a própria natureza. Onde existirem vilões, existirão heróis. Eles virão.