A questão heroica: 5 reflexões sobre Batman Vs Superman

Cinema

“A febre, a raiva, o sentimento de impotência que tornam homens bons, cruéis”

Após Homem de Aço, Batman VS Superman reforçou o tom do universo criado pela DC nos cinemas. Diferentemente dos costumeiros filmes de herói, Zack Snyder, também diretor de Watchmen, conseguiu criar um filme que gerou controvérsia tanto entre os espectadores, quanto os críticos – o Rotten Tomatoes classificou o filme com 28%, nota pior que Homem Aranha 3, de Sam Raimi, e X-Men 3: O Confronto Final, filmes que são conhecidos pela decepção que causaram.

Tal como o primeiro filme que inaugura esse novo universo cinematográfico, a película trata muito mais do que uma – boa – história, ou do que uma história com um foco no enredo, apesar de uma sacada – nunca explorada antes nos quadrinhos – que provocou um plot twist também muito controverso. Aqui, no entanto, tratarei, meu leitor, de um filme denso de super-heróis, que não traz apenas um roteiro com muitas referências de quadrinhos, mas que funciona em si e aborda mais questões humanas exploradas em seu plano de profundidade, e de maneira diferente, que um blockbuster comum.

Uma história de super-heróis que são tão humanos quanto nós.

Acho que não preciso avisar, há spoilers.

HEROÍSMO?

O que é ser um herói? Desde a Grécia antiga, os heróis têm sido tratados como aqueles que são dotados das virtudes necessárias para superar um problema que não poderia ser concluído por uma pessoa qualquer.  Nas muitas histórias, o herói é o protagonista, e é honrado, capaz de aceitar até as mais terríveis consequências para si – o que impõe colocar sua vida em risco – e continuar lutando para resolver o problema. Ou seja, querido leitor, um herói é um homem dotado de virtudes para resolver tais problemas mirabolantes sem se importar com o sacrifício que precisa ser feito.

Tendo em conta essa breve definição, a história se inicia – após a cena que será trabalhada mais tarde – com a apresentação de Bruce Wayne, um homem tão herói quanto seu alter-ego, o Batman, ele é quem arrisca a própria vida para salvar o maior número de pessoas que for possível, mesmo sem ter os recursos necessários. Em contrapartida, nos é mostrado o estrago causado pelo Homem de Aço (que vale lembrar, até o final de BvS não poderia ser chamado de Super-Homem).

Mas vamos começar pelo ponto de partida do Universo Cinematográfico da DC.

HOMEM DE AÇO

Mas quais são as virtudes necessárias para ser um herói? O Super-Homem pode ser considerado um Herói? Ou talvez o Batman?

O filme nos guia por meio de um conflito condutor no qual aos olhos de cada herói, o outro não merecia vestir a capa. Mas basta ver todo esforço que Clark teve de fazer para expulsar Zod e os outros alienígenas de Metrópoles, mesmo sem se conhecer totalmente e sem ter certeza do que aconteceria com o planeta que o acolheu. Ele dava ali, o seu melhor. O Homem de Aço não era o Super-Homem que esperamos, não era Super. Apesar de ser de Aço, ele ainda era um Homem que cometeu erros, que não soube se controlar e afastar a luta, que não conseguiu expulsar os kryptonianos assim que eles chegaram ou evitar que a “bate-estaca” espacial iniciasse a engenharia planetária deles.

O SUPER-HOMEM É MESMO UM SUPER HOMEM?

É importante falar de Homem de Aço antes de iniciar o debate de BvS, pois o filme é uma sequência e sequela direta dos acontecimentos desse ponto de ignição: após os eventos em Metrópoles, para muitos cidadãos o Superman pode ser a salvação, e para tantos outros, como Bruce Wayne, ele pode ser a morte. O conflito, para o espectador é trazido por meio de entrevistas e opiniões públicas, e muitas vezes não propriamente pelas ações dos protagonistas: quem não ficou chateado com o Superman por ele somente ter salvado a Lois no incidente com os terroristas e se omitido em intervir na política internacional não entendeu o impacto que essa intervenção poderia causar.

Se por inteligência ou ingenuidade ele salvou somente a senhorita Lane, não sei, mas que poderia ser um tiro no pé muito maior, poderia. E admitamos que se continuarmos no plano do “se”, caro leitor, a matéria e as discussões não teriam fim.

Retomemos: após os eventos de Metrópoles, o Homem de Aço executa uma série de salvamentos, tentando ajudar o maior número de pessoas possível: ele quer ser a Esperança, aquele que vem e faz de tudo para salvar todos os cidadãos, não intervir e lidar com política, não ter que ceder ao governo, mas salvar indivíduos, mesmo que precise se sacrificar (ou a sua vida profissional e pessoal) para isso. E a cada falha, vemos o herói cada vez mais enfraquecido. Em conformidade com os eventos, a opinião pública se apresenta dividida: por que um alienígena que se acha um deus, mas que não é nem um homem, e possui tanto poder salva uns e deixa outros? Ele pode escolher quem vive e quem morre? Se ele enlouquecesse, seu poder para salvar seria o mesmo para destruir, como já foi visto na sua tentativa inconsequente em Metrópoles.

O que ressalta é a frase do início da matéria, dita por Alfred e que vejo ser possível designá-la para caracterizar tanto Bruce Wayne como o Homem de Aço: “A febre, a raiva, o sentimento de impotência que tornam homens bons, cruéis”, se ele se frustrasse, e se surgisse algo que ele não pudesse evitar, como um homem de tamanho poder lidaria com essa situação? E desse gancho, partimos para a interpretação acerca do Batman também:

O MORCEGO DE GOTHAM

Ele é apenas um homem, um combatente do crime envelhecido que vê seus esforços serem inúteis no combate ao crime e que agora, tal como parte da população, vê uma ameaça muito maior: um homem que destrói uma cidade inteira sem derramar gota alguma de suor está por aí, à solta. E agora, ele, impotente, é capaz até de marcar homens para que morram na cadeia, que tortura e mata outros se for necessário, sem piedade alguma.

“Nós fomos criminosos nossa vida inteira, Alfred.”

E como um Homem desses pode ser herói?

Começaremos pela cena inicial da morte dos pais de Bruce. O colar de pérolas estourando e a última palavra do seu pai: “Martha”. Depois, temos a alucinação: o sangue que escorre do túmulo de sua mãe e um morcego monstruoso que sai de dentro do túmulo e o ataca. O “altar” com a roupa pichada de um parceiro que foi morto, provavelmente por sua culpa. Bruce Wayne é um homem que um dia pode ter sido um herói, mas hoje, é um perturbado, cansado e desconfiado. Ao invés de ser movido pelas suas virtudes, é movido pela culpa, e apesar de salvar as pessoas, elas o temem, como na cena em que os reféns recusam sair da jaula pois o Morcego ainda estava no local. “Ele é um demônio”, diziam.

Batman não é mais um herói, é um homem que desistiu e não se preocupa em ser cruel para amedrontar os criminosos. Seu lado detetive é muito bem explorado no filme e, para prevenção de uma perda de controle do Filho de Krypton, tenta explorar suas fraquezas para derrotá-lo em caso de necessidade. Paranoico e com a mente perdida, sua única reação causada por um gatilho traumático foi perceber que todo seu julgamento estava errado: até cair a ficha da sua contradição e a sua culpa se elevar da crueldade para a bondade, Batman é tal como o Homem de Aço: em sua apresentação ao Universo Cinematográfico da DC, o Morcego de Gotham ainda não é um herói.

O MORCEGO DE GOTHAM VERSUS O FILHO DE KRYPTON

Dia versus Noite. Enquanto Batman já aceita estar no fundo do poço com os morcegos e não ser levado para fora do mesmo por eles, notamos que o Homem de Aço tem incertezas quanto a sua figura de herói, ainda mais tendo em vista a opinião pública, vinda daqueles que ele mesmo salva. Em diversas partes Clark pede conselhos para sua mãe, Martha, e para Lois, mas só entende a sua real função quando tem um sonho com o seu pai, que lhe conta uma história de que quando ajudou a conter um problema, outros surgiram. Se formos olhar o herói moderno, que é menos perfeito e mais humano – e que muitas vezes flutua para o anti-heroísmo, tal como uma Mulher-Gato, ou até o Lobo -, notamos, no filme, essa transição: a figura do herói antigo, perfeito, tal como o próprio Superman dos quadrinhos mais antigos é transportada para o conceito de herói moderno, que sabe que não pode a tudo resolver ou a todos salvar. Ele sabe que não pode ser bom o tempo todo, mas o tenta ser.

É um esforço contínuo ser herói e manter suas virtudes em meio a tanto caos.

É um esforço contínuo ser humano e manter suas virtudes em meio a tanto caos.

É aí que o Homem de Aço se encontra e começa a se tornar o Super-Homem, percebendo que pode dar o seu melhor sempre, mas sabendo que nem todos ficarão satisfeitos. O Confronto Dia versus Noite faz perceber que não tem como ser a luz sem produzir uma sombra. Já Batman apenas se torna o herói quando, no fim do confronto com o Superman, tem o insight:

“- Você não é um deus, você nem mesmo é um homem!

– Você vai deixar Martha morrer!”

E daí sai o plot twist e a sacada nunca explorada antes: o nome da mãe de Clark Kent é o mesmo da mãe de Bruce Wayne. Um fato que muitos leitores de quadrinhos antigos não haviam percebido e foi bem trabalhado na história: o Batman, aquele homem totalmente perturbado que mesmo depois de mais de quarenta anos do incidente, que ainda tem sonhos perturbadores/alucinações, percebia que aquele que julgava ser um alienígena que poderia destruir o mundo não era só um humano, como também tinha uma mãe, uma família, e que, no fundo de sua indestrutibilidade, sentia medo de perdê-la. Superman se entrega ali e em sua última súplica de humanidade pede que o Morcego salve Martha; Bruce, por outro lado, se entrega ali em um último resquício de virtude e piedade, e percebe que ele poderia ser um herói de novo, e que o Homem que ele estava lutando também poderia sê-lo.

No fundo, o reconhecimento da família do outro se fez nele, e pela mesma noção de família, que um permitiu o heroísmo do outro.

Vejam bem, não quer dizer que eles se tornaram amigos: mesmo com a fala dele para a mãe de Clark, “sou amigo do seu filho”, lembremo-nos que esse mesmo Morcego de Gotham marcava homens para a morte e assustava até pessoas que ele mesmo salvava a ponto de elas não quererem sair de uma jaula enquanto ele estivesse lá. Para uma senhora ter segurança, é muito mais provável que a fala seja uma maneira de não provocar um ataque do coração após salvá-la do lança-chamas.

O VERDADEIRO HERÓI? A VERDADEIRA HEROÍNA!

Por fim, vemos ali a aparição da Mulher-Maravilha, que havia desistido da humanidade há cem anos e agora ia embora mais uma vez após Bruce ter decodificado e recuperado a sua foto roubada por Lex. Ao ver a necessidade, a Mulher-Maravilha que em suas aparições sempre foi vista de maneira marcante, não decepcionou, e retornou marcando o “heroísmo clássico” que a faz reaparecer quando um problema realmente grande se apresenta. Ela, ali, é a linha que une os dois heróis-humanos em suas virtudes, transformando-os em verdadeiros heróis. Não é à toa que, no final, vê-se a ação em sacrifício do Super-Homem que poderia ser feito pela Mulher-Maravilha ou pelo Batman, mas o significado se diluiria pois não haveria o encontro de Clark Kent com o seu Eu-Heróico. Bruce se encontrou quando salvou Martha, e Clark Kent, agora Super-Homem, consegue afastar a luta para o espaço, e está disposto a segurar o inimigo para que a bomba exploda os dois mesmo que isso custe sua vida, para que, no fim, tenha entregue sua vida para salvar a de todos os outros.

Disso, é possível concluir que o seu sacrifício reforça e marca a volta do Batman herói que diz que não falhará com o “amigo” na morte: a Esperança de lutar pelo bem e pela proteção dos mais fracos sem deixar seu lado obscuro, desvirtuoso, distorcido, sobressair. Um exemplo disso é a cena da prisão em que ele marca a parede e não o Lex Luthor.

O COMEÇO DE UM NOVO UNIVERSO DE SUPER-HERÓIS COM NOVOS CONCEITOS?

O dilema Herói vs. Humano é trabalhado de maneira muito sutil e em um filme obscuro com poucos diálogos que muitos pensaram ser desconexos ou confusos, mas que, na verdade, carregavam grandes significados se fossem mais aprofundados na nossa leitura do filme – partindo do denotativo e indo para o conotativo, com certeza encontraríamos mais que um fundo de iceberg não explorado. Não obstante, Snyder marcou um tom mais obscuro para o filme que influenciou no Universo DC e que difere – ou que pareceu diferir, já que Esquadrão Suicida veio na contramão mas foi muito, muito criticado – em muito da Marvel, não só na questão de foco em significado e densidade da história, mas na coragem em até “matar” o protagonista do filme no segundo filme desse mesmo universo heroico. Aos “puristas”, peço desculpas, mas é impossível não comparar, no entanto é uma comparação – como um grande amigo meu falou – de cerveja com vinho, não há como dizer qual é melhor senão pelo gosto. Então, na dúvida, apreciemos os dois da maneira mais adequada para cada um.