A ascensão das universidades: uma breve análise da sua origem medieval

Matérias Literárias

Charles Homer Haskins foi um grande historiador medievalista americano, conhecido pela sua obra e também por ser assessor do presidente americano Woodrow Wilson – e por lecionar em Harvard por mais tempo do que eu tenho de vida hoje. Em sua obra A Ascensão das Universidades, que foi criada a partir de um ciclo de palestras, publicada pela Livraria Danúbio Editora, Haskins traça um panorama acerca do surgimento e do desenvolvimento dessa instituição hoje tão cara para nós.

Com um prefácio muito belo e que acrescenta bastante em relação ao conteúdo de Rafael Falcón, o livro é dividido em três partes: As Primeiras Universidades, O Professor Medieval e O Estudante Medieval. E já na parte que dá início ao livro, o professor nos mostra que as Universidades apesar de carregarem semelhanças com o Ensino Superior da Antiguidade Clássica não são sinônimos e trazem divergências e, além disso, Universidade não vem de Universo ou Universalidade do Ensino, mas sim da totalidade de um grupo de pessoas reunidas por um mesmo interesse, sejam elas professores, alunos ou barbeiros.

Muito se engana, leitor, quem pensa que as Universidades já surgiram com enormes prédios e estruturas que estão até hoje aí em instituições tradicionais como em Oxford ou Bolonha por exemplo. Inicialmente, eram feitas apenas de homens, de pessoas: alunos que se reuniam para estudar. Havia muitos problemas em relação ao dinheiro e, em diversos casos, os que se mudavam com a intenção de fazer seus estudos conseguiam provocar mudanças significativas nos mercados locais, e isso inclui o preço do aluguel de quartos, por exemplo. Os estudantes, como é dito e repetido hoje em dia – mas muitas vezes sem conhecimento do que já aconteceu –, sempre tiveram uma força capaz de mover as estruturas da sociedade.

E tal como os estudantes começaram a fazer as suas próprias organizações para estudo, em que apenas eles entravam, os professores também formaram o próprio “colégio” o qual para a aceitação havia um processo seletivo dos alunos que poderiam partilhar essa empreitada: em muitos casos, os professores estavam iniciando suas pesquisas e eram acompanhados por esses educandos na construção do conhecimento e do aprendizado. E uma vez que não havia conselho diretor, controle estatal semelhante ao que vemos hoje nem dotações muito significativas – e não era uma sociedade de estudantes – a universidade já foi, uma vez, uma sociedade de mestres.

Com a popularização dessa instituição, e tal como nos parece ter sido herdado, os alunos tentavam entrar para esses colégios em busca de um título, uma licença de professor que, tal como nos afirmas Haskins: “Visto que uma boa maneira de avaliar o conhecimento de um assunto é pela habilidade de ensiná-lo, o estudante, qualquer que fosse a sua carreira futura, buscava na licença de professor um certificado de suas realizações.” e esse certificado foi, como nos é afirmado, a primeira forma de grau acadêmico, licentia docendi.

Além disso, é fato notável e coincidente com a atualidade que estudantes também eram conhecidos por serem beberrões, andarem armados e arranjarem confusões entre mais de um grupo de alunos, por mexerem com mulheres nas ruas, por dormirem nas aulas e fugirem das mesmas, pela alegria no fim da aula. Porém, também haviam aqueles que estudavam, seguiam as ordens dos professores, visitavam os outros colegas e ajudavam-nos em caso de enfermidade, eram ávidos no debate mas buscavam sempre ter a maior quantidade possível de conhecimento antes de falar… e tantas outras características mais que até fica difícil falar sem parecer que descrevo alguns grupos de hoje em dia.

Um outro fato curioso é percebermos que as Universidades como instituição que vemos hoje surgiram de Notre Dame – onde eram ensinadas as artes liberais, Direito, Teologia e Filosofia -, em que havia um reitor que comandava e controlava diretamente a outorga dos graus, e pelo exemplo de lá, seguiu Bolonha. E se pararmos para pensar, leitor, Haskins acerta muito quando nos diz que somos muito mais herdeiros de Paris e Bolonha que de Atenas quando se trata desse ensino universitário.

O ensino medieval, por outro lado do que se imagina, não era um ensino ditatorial ou censor por ser controlado em sua maioria pela Igreja ou por seus membros e seguidores. Havia grande liberdade de estudos em várias áreas, como no Direito, por exemplo, mas se tratando de Teologia e Filosofia havia certamente algumas restrições que, no entanto, não eram feitas de maneira que professores fossem presos – ou até se sentissem presos – ou mortos por ensinarem algo de fora da doutrina, mas sim tratavam de erros que, se comprovados, poderiam condenar o professor ao afastamento da escola. Aliás, tal como é ressaltado na obra, não houve censura organizada de livros até o século XVI, ou seja, um século após o fim da Idade Média. Apesar disso, Haskins não ignora contradições por membros do clero que faziam parte da universidade ou que i.e. eram poetas errantes, e também pelas e podas em relação à produção de conteúdo da época.

O professor medieval, do contrário do que se pensa, muitas vezes não se incomodava com a “censura”, afinal, a sua mentalidade estava inserida naquele contexto e se ele desejava ingressar naquela instituição para fazer estudos da área, a chance de ele ser contra a própria instituição era muito baixa. É como alguém que escolhe fazer e estudar engenharia afinco sem ter vontade alguma de ser engenheiro ou entender como funciona a disciplina. Como diz o professor, um muro não incomoda se você não quer atravessá-lo. Os professores, no caso, eram focados os “interesses permanentes do ser humano ao mesmo tempo em que estimulava a inteligência dos homens e mantinha viva a tradição contínua de cultivo da ciência.”. Inclusive, o Haskins traz um exemplo em que Paris foi notificada pela existência de 30 erros na faculdade de arte de Oxford, condenados não como heréticos, mas que foi capaz de provocar o afastamento do mestre. E eram erros como abolição dos casos dos substantivos latinos. E tal como aponta Haskins: “sentimo-nos mais propensos a simpatizar com os pobres estudantes que com os mestres destituídos. O que também traz à memória a definição moderna de liberdade acadêmica: “O direito de dizer o que se pensa; sem pensar no que se diz!”

Portanto, disso podemos tirar diversas conclusões e iniciar variadas reflexões, já que há muito de diferente entre as universidades antigas e as atuais, de tal forma que se trouxéssemos alguém do passado para os dias de hoje, o estranhamento poderia ser muito grande em relação a como se dá o ensino universitário, e vice-e-versa: quem iria à uma casa alugada, ou do próprio professor, para ter aulas sobre determinado assunto que se interessa e ganhar uma licença para lecionar determinado assunto? No entanto e ao mesmo tempo, como diz Falcón em seu prólogo, parece que a raiz universitária sempre esteve ligada a um professor, e como há uma raiz comum podemos notar várias semelhanças, tanto em relação aos professores universitários, como os próprios estudantes, sejam os exemplares, sejam os bagunceiros.

Por fim, deixo a citação de um dos parágrafos que qualquer tentativa minha aqui de explicá-lo seria insuficiente ou injusta com o trecho original:

“Às vezes, as universidades são criticadas por não serem acessíveis ou enfatizarem a educação profissional, por serem muito brandas ou demasiado exigentes, e esforços drásticos foram feitos para reformá-la por meio da abolição dos requisitos de entrada ou da exclusão de tudo aquilo que não tem como objetivo o ganha-pão; contudo, nenhum substituto jamais foi encontrado para a universidade no que diz respeito à sua atividade principal, isto é, a formação de estudiosos e a continuidade da tradição de aprendizagem e investigação. A glória da universidade medieval, diz Rashdall, foi ‘a consagração do Conhecimento’; uma visão e glória que ainda não desapareceram da face da terra.”