Pra conhecer #6: Emil Cioran, manual de anti-ajuda

Pra Conhecer

“É incrível como a possibilidade de ter um biógrafo nunca leve ninguém a renunciar a ter uma vida.”

Cioran

Duvidar é mais uma questão de saúde do que de inteligência. Cioran tira risadas justamente de onde a esperança lava as suas mãos. É o monstro que olha para as coisas como elas são. O diletante noturno que ilumina a noite com os seus aforismos. Quem cogita o suicídio pode pegar qualquer um de seus livros e adentrar no seu pensamento. O resultado só poderá ser um: ou o desejo irreparável de seguir vivo, ou inspirar-se a ponto de finalmente assinar a carta de despedida.

Cioran provoca, mexe com o leitor. Obriga-o a se confrontar com as suas certezas e descobrir que não há nenhuma. A pensar contra si mesmo. A contemplar a verdade, esse “erro exilado na eternidade”, e seu extremo oposto. Remédio contra o otimismo, um esteta insone que não se separa em hipótese alguma dos vencidos.

A vida não tem nenhum sentido, nos diz Cioran, mas essa é a única razão para vivê-la. Diante da caverna de Platão, que sugere que devemos romper as correntes e contemplar o mundo, Cioran se pergunta se isso não é algo contraproducente, se na realidade não seria melhor permanecermos enganados, sem o menor sinal de lucidez.

Cioran é a risada de escárnio. Seria melhor não nos levantarmos da cama e olharmos para o teto do quarto o dia todo. Escutar Bach, a quem Deus deve tudo. De modo parecido com Nietzsche, Cioran acredita que a música é o único acerto desta vida: “A música é um conjunto de prazeres, uma felicidade que nos envolve”.

Alquimista de si mesmo, para ele apenas duas atividades valiam a pena: o cinismo e a leitura. O cinismo como atitude filosófica: “Penso que a filosofia é um sinal de boa saúde – o que não o é é colocar-se para pensar”.

Chegou em Paris aos 26 anos, com alguns livros escritos em romeno que continham as ideias centrais do seu pensamento: Deus, o suicídio, o irreparável, o irremediável, a música, o silêncio, a inutilidade das coisas.

Começou a escrever em francês – “uma aventura que daria sentido à existência”-, e cada palavra, cada frase estruturada e pensada detidamente o levariam a se tornar um dos melhores ensaístas e filósofos dessa língua (no sentido de quem reflete sobre a condição humana, não de quem possui intenções moralizantes), à altura de nomes como Montaigne, Chamfort ou La Rochefoucauld. “Não habita-se um país, habita-se uma língua. Uma pátria é isso e mais nada”.

Deslocado do círculo de escritores, Cioran recusou vários prêmios. Dizia que não podia aceitá-los depois de escrever um livro como A Tentação de Existir. Ao contrário do que se pensa, no entanto, Cioran teve muitos amigos – como Ionesco e Eliade, compatriotas que encontrou em Paris, ou como Paul Celan, com quem traduziu em conjunto a obra Breviário de Decomposição, e quem retratou em Exercícios de Admiração (livro em que mostra outra face de si mesmo), junto de personagens como Fitzgerald, María Zambrano e Joseph de Maistre.

Em uma carta endereçada a outro de seus amigos, o tradutor espanhol Fernando Savater, Cioran falou sobre Borges – “o último delicado”.

O escritor espanhol Félix de Azúa conta que a França passava por uma greve de funcionários da limpeza pública e, por isso, a cidade estava repleta de lixo e sujeira. Nesse cenário, Samuel Beckett chamava Cioran para dar um passeio todas as tardes: “Paris nunca esteve tão bela”, dizia o escritor irlandês ao filósofo romeno.

Cioran gostava de conversar com varredores de rua, com indigentes, com prostitutas: “companheiros ideais nos momentos de profundo desânimo”. Naquelas pessoas, dizia, encontrava gente que pensava, pessoas de valor, com uma concepção de vida muito mais interessante do que a casta de filósofos e intelectuais.

Morou com Simone Boué, professora do ensino básico e sua eterna companheira, em uma casa simples na região periférica do bairro latino em Paris. Ambos se conheceram no refeitório da Universidade onde ele continuaria matriculado até seus quase 40 anos. Simone permaneceu com Cioran até o seu falecimento, em 1997. Dois anos depois, ela o acompanharia novamente.

Cioran foi o eterno pessimista, um monstro que viveu isolado, o misantropo que odiou o mundo para depois odiar a si mesmo. Mas que, no fim das contas, encontrou mais uma contradição, um tapa na cara como só os que ele sabe nos dar: “Uma pessoa pode se dizer niilista e, no entanto, se apaixonar como o maior dos idiotas”.