4 pinturas que ainda não foram (completamente) desvendadas

Artes, Destaque, Imagens, Listas

Toda palavra requer um certo afastamento da realidade a que se refere. Toda palavra é uma libertação a quem a diz.”
Maria Zambrano

A filósofa e escritora espanhola Maria Zambrano, exilada de seu país na ditadura de Franco, em seu texto Pensamento e Poesia aponta para a diferença entre a filosofia e a poesia. O seu ponto é que existe na filosofia uma espécie de admiração e violência (por exemplo, na alegoria da Caverna de Platão) que a poesia prescinde. Como exemplo, ele aponta para quadro autores da história da arte que compuseram quadros de grande valor e significado, mas que até então tem seus conteúdos ainda não completamente desvendados. O mistério, neste caso, ou a sua indecifrabilidade, é o que possui de mais potente.

O NotaTerapia montou uma matéria com estas obras, contando um pouco de cada uma delas. Confira:

1- A Tempestade, de Giorgione (1508)

É um quadro que mostra um profundo senso de mistério. Uma pequena ponte nas águas escuras, perto de uma cidade, explode em tons brilhantes sob um céu ameaçador, cujas nuvens são divididas pelo brilho de um relâmpago. Nenhum traço de mal-estar nos personagens e no seu isolamento. Eles vivem suas próprias emoções no seio da natureza, apesar dos sinais. (Alvarez Lopera)

Este é talvez um dos quadros mais misteriosos de toda a história de arte. Ninguém até agora conseguiu identificar o tema desta pintura, embora tenham sido apresentadas muitas teorias. Em 1530 este quadro foi descrito como «Paisagem em tela com tempestade, ciganas e soldado». Alguns especialistas sugerem que em vez da cigana teremos a Virgem Maria com o menino. Mas, a ser assim, como explicar a sua nudez?

Outros, aventam que se trata de uma alegoria pastoril, com a tempestade ao fundo representando a Fortuna, sempre imprevisível e incerta… Uma análise do quadro através de raios X mostra que a figura do soldado, ou pastor, foi pintada por cima de outra figura feminina despida, o que contribui para adensar mais o mistério. Toda a pintura está embrenhada de elementos de forte simbologia: a cegonha, a serpente, os pilares quebrados (referência a Sansão e à sua força), etc.

Fonte: http://rabiscos.vmribeiro.net/index.php/artecultura/170-qa-tempestadeq-de-giorgione

2- As Paisagens de Patinir

Neste caso, não se trata de uma obra, mas da coleção de paisagens de Patinir. O pintor pintou poucos quadros. Teve uma vida curta e não se sabe praticamente nada a seu respeito. É, no entanto, reconhecido como o inventor das paisagens. Foi o primeiro pintor a elevar a paisagem a protagonista de seus quadros, ou ao menos o primeiro a fazer isso com grande maestria. É interessante ver em suas obras, ainda não desvendadas por completo, uma mistura de mundo de paisagem e mundo desconhecido: o que há e o que poderia estar. O blog Ritmo Dissoluto fala da sobre o mistério de suas obras assim:

A luz de Patinir continua sendo, para mim, um mistério, e toda vez que olho para um de seus quadros tento resolvê-lo. Nunca consigo. Ainda bem, pois há certas coisas que devem ficar envoltas em enigma para que possam ser apreciadas, pois é apenas no segredo e no silêncio que podemos nos evadir. Um filósofo espanhol, falando sobre a importância da metáfora, dizia que apenas ela “crea entre las cosas reales arrecifes imaginarios, florecimiento de islas ingrávidas”. Na luz de Patinir encontro a delicadeza e a esperança de que é possível sim viver uma vida mais leve e maior, procurando, assim como dizia Goethe, “do escuro rumo ao claro aspirar”.
Blog O Ritmo Dissoluto

3- Baco, de Leonardo da Vinci

O mistério do Baco, de Leonardo da Vinci, é o mesmo que circunda algumas de suas obras. Era comum que ele retratasse alguma figura apontando para um ponto do quadro que não se pode saber qual é. Como é um lugar que está para fora do quadro, existem muitas especulações daquilo que as figuras de da Vinci queriam indicar. É interessante que perceber nesta obra a figura possui características andróginas. Alguns autores têm argumentado que a pintura pode ser a obra de Cesare da Sesto, Bernazzano Cesare, Francesco Melzi ou um “pintor Lombard“. O fundo não parece típico do trabalho de Leonardo e isso leva à especulação sobre a sua autoria. Atualmente, é considerada uma Salai tabela herdada, documentado em 1625 em Fontaine bleau em 1695 e nas coleções real francesa.

Além da autoria não confirmada, a obra também apresenta dúvidas em relação a seu conteúdo, como explica o blog Vida Abundante:

Segundo os críticos, originalmente representava São João no deserto, com seus atributos típicos e só mais tarde, entre 1683 e 1695 foram adicionados a coroa de ramos, a pantera pele e cacho de uvas, os atributos de Baco. Nenhum desses atributos aparecem em dois báquicos cópias conhecidas do trabalho: um de Cesare da Sesto e outro na igreja de San Eustorgo Milan, e aparecem, no entanto, em uma pista pintada por Andrea del Sarto e preservados em Worcester. Rafael também mostra João Batista com o nébride de Baco.

Blog Vida Abundante

4- Vista do Jardim da Villa Médicis, de Velázquez

Paisagens maravilhosas e minúsculas, pintadas por Velázquez copiando dois cantos do Roman Villa Medici tem, além de sua excepcional beleza e modernidade técnica, o charme misterioso de suas imprecisões cronológicos. Em sua primeira viagem à Itália, de 1629 para 1631, Velázquez, graças a recomendação do embaixador espanhol, viveu na cidade, que, por sua elevação e os seus jardins, foi o lugar mais legal de Roma durante a onda de calor.
Sem dúvida, poderia então, calmamente, para prazer de pintura, ar de plein, estes efeitos vibrantes do sol através das folhas. Alguns críticos acreditam que a beleza do quadro é atribuída a leveza magistral do toque à falta de preocupação, porque é um ponto e não um trabalho terminado. Outros críticos preferem ver estas paisagens na obra de seu segundo Roman permanecer em 1650, evocando, com não sem lirismo melancólico, a cena de seus meses romanos já remotas e primeiros.

Este impasse sobre o que e quando a obra se encontra dentro da cronologia de Velázquez cria impasses e instabilidades na forma com que estas obras são encaradas até os dias de hoje.