10 músicas de Belchior que fazem referência a clássicos da literatura

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Não confiem em mim. Eu não existo! Sou apenas o personagem que diz isso.

(Canção Rock-romance de um robô Golliardo, Belchior)

A morte de Belchior no último dia 30 de abril mexeu com o Brasil como poucas vezes antes. Afinal, Belchior não só foi um dos maiores nomes da música brasileira como, também, foi uma figura que fascinou gerações. Buscando notícias e informações sobre o cantor – além de, claro, ouvir todas as suas músicas sem parar – neste vasto mundo que é a internet, nos deparamos como uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará intitulada “Muito além de apenas um rapaz latino-americano vindo do interior: investimentos interdiscursivos das canções de Belchior”, de Josely Teixeira Carlos.

Em sua dissertação, a autora investiga os modos como discursos outros da literatura e da música são introduzidos, escondidos, ressignificados e reinventados nas canções de Belchior. Em determinado momento da dissertação, uma tabela (que pode ser vista na íntegra no link disponibilizado ao final desta matéria) reúne estas relações de Belchior com outros artistas. A partir desta tabela, feita pela pesquisadora, selecionamos* 10 músicas em que Belchior faz referência a clássicos da literatura nacional e internacional. Confira:

1- A palo seco

O nome da música faz referência ao incrível poema A Palo Seco, de João Cabral de Melo Neto:

1.1.
Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;
se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.
1.2.
O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.
1.3.
O cante a palo seco
é um cante desarmado:
só a lâmina da voz
sem a arma do braço;
que o cante a palo seco
sem tempero ou ajuda
tem de abrir o silêncio
com sua chama nua.
1.4.
O cante a palo seco
não é um cante a esmo:
exige ser cantado
com todo o ser aberto;
é um cante que exige
o ser-se ao meio-dia,
que é quando a sombra foge
e não medra a magia.
2.1.
O silêncio é um metal
de epiderme gelada,
sempre incapaz das ondas
imediatas da água;
A pele do silêncio
pouca coisa arrepia:
o cante a palo seco
de diamante precisa.
2.2.
Ou o silêncio é pesado,
é um líquido denso,
que jamais colabora
nem ajuda com ecos;
mais bem, esmaga o cante
e afoga-o, se indefeso:
a palo seco é um cante
submarino ao silêncio.
2.3.
Ou o silêncio é levíssimo,
é líquido e sutil
que se ecoa nas frestas
que no cante sentiu;
o silêncio paciente
vagaroso se infiltra,
apodrecendo o cante
de dentro, pela espinha.
2.4.
Ou o silêncio é uma tela
que difícil se rasga
e que quando se rasga
não demora rasgada;
quando a voz cessa, a tela
se apressa em se emendar:
tela que fosse de água,
ou como tela de ar.
3.1.
A palo seco é o cante
de todos mais lacônico,
mesmo quando pareça
estirar-se um quilômetro:
enfrentar o silêncio
assim despido e pouco
tem de forçosamente
deixar mais curto o fôlego.
3.2.
A palo seco é o cante
de grito mais extremo:
tem de subir mais alto
que onde sobe o silêncio;
é cantar contra a queda,
é um cante para cima,
em que se há de subir
cortando, e contra a fibra.
3.3.
A palo seco é o cante
de caminhar mais lento:
por ser a contra-pelo,
por ser a contra-vento;
é cante que caminha
com passo paciente:
o vento do silêncio
tem a fibra de dente.
3.4.
A palo seco é o cante
que mostra mais soberba;
e que não se oferece:
que se toma ou se deixa;
cante que não se enfeita,
que tanto se lhe dá;
é cante que não canta,
cante que aí está.
4.1.
A palo seco canta
o pássaro sem bosque,
por exemplo: pousado
sobre um fio de cobre;
a palo seco canta
ainda melhor esse fio
quando sem qualquer pássaro
dá o seu assovio.
4.2.
A palo seco cantam
a bigorna e o martelo,
o ferro sobre a pedra
o ferro contra o ferro;
a palo seco canta
aquele outro ferreiro:
o pássaro araponga
que inventa o próprio ferro.
4.3.
A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,
as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.
4.4
Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:
não o de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.

2- Lira dos vinte anos

Nesta canção, Belchior faz referência, inclusive no título, ao livro Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo. O livro foi publicado postumamente, em 1853, e contém poemas do autor, conhecido pela obra Noite na Taverna.

3- Elogio da loucura

Aqui, a referência é a Erasmo de Roterdam e seu ensaio Elogio da loucura, de 1509, um dos mais influentes livros da civilização ocidental.

4- Divina comédia humana

Em Divina comédia humana, Belchior faz referência a quatro grandes obras: Divina Comédia, de Dante Alighieri; Comédia Humana, de Honoré de Balzac; A comédia humana, de William Saroyan e, por fim, Via Láctea parte XIII, de Olavo Bilac. Esta última é citada literalmente no decorrer da música.

5- Amor de perdição

Camilo Castelo Branco escreveu a novela Amor de perdição em 1861. É seu romance mais famoso.

6- Se você tivesse aparecido

Nesta canção, Belchior faz referência a William Blake e suas Canções de Inocência e Experiência:

Se você tivesse aparecido
em minha adolescência,
canção blake de inocência
amor, quem não teria ido e vivido
com Byron, o bardo da gangue
do “le me perish young“
Se você tivesse aparecido esta
droga de
existência se mudaria em viver
eu coração (traído) bandido,
canção blake de experiência
revelaria seu ser.

7- Vício elegante

Esta obra cita As flores do mal, clássico livro de poemas do francês Charles Baudelaire, um dos mais importantes de todos os tempos.




8- Notícia de terra civilizada

Notícia de Terra Civilizada refere-se ao grande Euclídes da Cunha e seu Os Sertões:

Lido e corrido relembra
Um ditado esquecido
“Antes de tudo um forte!”
Com fé em Deus um dia
Ganha a loteria
Pra voltar pro Norte

9- Ter ou não ter

Mais uma vez, Belchior vai aos clássicos: desta vez, é Hamlet, de William Shakespeare, e o famoso “to be or not to be”.

10- Velha roupa colorida

O Corvo, de Edgar Allan Poe, apareceu em Velha Roupa Colorida:

Como Poe, poeta louco americano
Eu pergunto ao passarinho: Black bird, Assum-preto, o que se faz?
Haven never haven never haven never haven never haven
Assum-preto, passáro preto, black bird, me responde, tudo já ficou atrás
Haven never haven never haven never haven never haven
Black bird, passáro preto, passáro preto, me responde
O passado nunca mais

*Todas estas relações foram observadas e analisadas pela pesquisadora Josely Teixeira Carlos, tendo o NotaTerapia apenas consultado sua dissertação. A dissertação completa, bem como a tabela da qual retiramos as informações, podem ser acessadas no repositório da UFC, AQUI. Josely é pesquisadora da USP e professora de linguística. Mais informações em seu site: http://discosediscursos.wix.com/josyteixeira