O que Anne Frank ainda tem a ensinar para nós?

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“Como é maravilhoso que ninguém precise esperar um minuto sequer antes de começar a melhorar o mundo”.
Anne Frank

Após sete décadas de sua publicação, O Diário de Anne Frank, com mais de 35 milhões de cópias vendidas em todo o mundo ainda continua sendo uma sumidade editorial. Mas o que Anne, com suas palavras francas, ingênuas e imortais, ainda pode nos acrescentar, não apenas culturalmente, mas emocionalmente?

Todos conhecemos a história do Diário; refugiados da Segunda Guerra Mundial passam seus dias escondidos em um anexo em um simples prédio comercial em Amsterdã, Holanda. Fatalmente sendo descobertos, Anne, sua família e os agregados são levados para Westerbork, um campo de concentração situado no norte na Holanda. Lá todos morrem, exceto seu pai, Otto Frank, responsável pela publicação da obra.

Entretanto, ainda que Anne tenha acabado seus dias torturada por impetuosos soldados alemães é, de certa forma, lenitivo pensar que sua alma foi salva pela escrita. “Kitty”, como Anne chamava seu diário, não foi apenas um instrumento que ela usou contra o inevitável tédio de seu esconderijo, foi muito mais do que isso! Kitty foi a janela para sua própria alma, sua descoberta de si própria; recheado de palavras que saíam do fundo de sua alma prisioneira.

Mesmo em meio ao caos, a desesperança e principalmente ao medo e a fome, Anne se agarra às suas palavras e a uma fé que todos deveríamos cultivar no mais fundo de nosso ser:

“Não tenho dinheiro, nem posses terrenas, não sou linda, inteligente e nem esperta, mas estou feliz e pretendo continuar assim!”

Seu diário é recheado de sentimentos, de pensamentos, mas sobretudo de planos! A escrita deu a ela um motivo para pensar no amanhã já que foi escondida no anexo que Anne decidiu ser escritora!

Dentre confissões sentimentais e relatos saudosistas de sua infância antes da Guerra, Anne também desabafa seu lado irritadiço, desordeiro e mal criado. Há uma autenticidade na forma que, Anne admite não ser o tempo inteiro uma boa menina e que está tudo bem em ser assim. Ela permanece fiel a si própria, mesmo que isso signifique ficar de castigo, ou sem sobremesa. Em um trecho que diz:

“Vocês podem pensar que não fui bem-criada, mas muitas pessoas discordariam!”

ela ilustra o fato de que, é normal do ser-humano não ser dócil o tempo inteiro. Mesmo que você seja uma menina, amarrada a antigas convenções do gênero.

Outro lado admirável da jovem Anne é sua capacidade de amar:

“Será que ele tem o mesmo desejo? Será que é tímido demais para dizer que me ama?”

E também de se amar, estando primeiro, a sua própria disposição:

“Bati a porta do meu interior; se ele quiser forçar a fechadura de novo, terá de usar um pé de cabra!”

É relatado também – sobre o seu seio familiar -, sua relação agridoce com sua mãe Edith, seu companheirismo com seu pai e suas descobertas com Margot, sua irmã. Anne permite-se sentir um leque de sentimentos controversos quando se trata de sua família. Exibindo assim, o verdadeiro trato familiar que, na verdade, todos temos. Há horas em que os considera e que os odeia;

“Terminou o período de lágrimas e julgamentos contra mamãe (…)na maior parte do tempo, consigo segurar minha língua quando me sinto chateada, e ela também; assim, superficialmente, parece que estamos nos dando melhor. Mas há uma coisa que não consigo fazer: amar mamãe com a devoção de uma filha.”

Com o passar do tempo em sua escrita, Anne nos mostra também que evoluir e mudar devem fazer parte da vida – ainda que você seja parte de um cárcere, e não da própria vida. E que rejeitar a mudança e a metamorfose natural das ideias é tolice. Tudo o que nos sobra é o aprendizado.

“… O que sobrou daquela Anne Frank? Ah, não me esqueci do riso nem das respostas afiadas; continuo boa – talvez até melhor – em deixar as pessoas pisando em brasas, e ainda consigo paquerar e ser divertida, se quiser…”

Por fim, é necessário dizer que, a escrita de Anne é e sempre será uma tábua de salvação para todos aqueles que crêem na vida, e em si próprios. Que a tristeza faz parte da vida sim, mas que a magnitude da alegria é algo muito mais nobre, poderoso e pleno!

“… É nisso que eu e mamãe somos muito diferentes. Seu conselho diante da melancolia é: “Pense em todo o sofrimento que há no mundo e agradeça por não fazer parte dele.” Meu conselho é: Saia, vá para o campo, aproveite o sol e tudo que a natureza tem para oferecer. Saia e tente recapturar a felicidade que há dentro de você; pense na beleza que há em você e em tudo ao seu redor, e seja feliz.”