5 poemas (quase) desconhecidos de Adolfo Caminha, autor de Bom Crioulo

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“Na obra d’arte com especialidade essa perfeição só se adquire por meio de um trabalho penoso, mortificante, cheio de desesperos, e que vai desde o simples esboço, rápido e nervoso, té a forma definitiva, serena e límpida, através da qual não se percebem as agonias do artista na luta pela realização do ideal estético.”
Adolfo Caminha

Adolfo Caminha é um grande escritor brasileiro do século XIX. Sua obra mais conhecida, O Bom Crioulo, ficou conhecida por se tratar de um dos primeiros livros a relatar a questão da homossexualidade. Polêmico, mas também sempre atento às questões sociais, Caminha não se aventurou apenas nos romances. Também publicou contos e poesias e chegou a deixar ainda duas obras inacabadas. Adolfo Caminha morreu precocemente, aos 29 anos de idade.

Seu livro de poesia, praticamente desconhecido, no entanto, revela outra face do escritor. O NotaTerapia separou 5 poemas quase desconhecidos de Adolfo Caminha. Que tal conhecer?

MINHA MUSA
Minha musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi,
É de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri!
É a crença que alentei,
As luas belas que amei
E os olhos por quem morri!
Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei,
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!
Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção…
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do coração!
Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei…
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!
E se tu queres, donzela,
Sentir minh’alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
E dá repousar-me teu seio…
Ouvirás no devaneio
A minha lira cantar!

NO BANHO

Ninfas do bosque, Naiades formosas,

Sátiros, Faunos, vinde vê-la agora,

Nua, no banho, esta ideal senhora,

Que em beleza e frescura excede as rosas.

Vinde todos depressa!… Ei-la que cora,

Ei-la que solta as tranças graciosas

Sobre as espáduas níveas, capitosas…

Ei-la que treme à loura luz da aurora…

Tinge-se o céu de cores purpurinas,

O sol desponta; as tímidas boninas

Mostram à luz os cálices dourados.

Vêde-as, Ninfas, agora: os nacarados

Lábios, os seios túmidos, nevados,

Segredam coisas ideais, divinas.

ZÉ PACATO
Ora bolas!… Ora balas!
Eis-me aqui as cabriolas,
Posso agora, sem virá-las,
Minhas balas, minhas bolas…
Deu-me agora nas violas,
Inventar esta secção,
Para balas… para bolas…
Carambolas… que me dão!
O meu programa
É este sem mais:
Fazer versos
Que deem-me fama.
E sendo, leitor assim
Quero que a elas leitora
Rimando a canção sonora,
Bondosa, goste de mim.
E eu fugindo agora dela
Mais ligeiro do que um gato
Humilde, sem mais aquela
Me assino de
ZÉ PACATO.
ÊXTASE
Quando às horas silentes da noite,
Doce flauta descanta no ar,
Quando as vagas soluçam baixinho
Sobre a praia que alveja o luar!…
Solta o vate das cordas da lira
Mil canções deleitosas, d’amor
Que se orvalham nos puros fulgores
Do luar que inebria o cantor…
Sobre as cândidas vestes da brisa
Que se imerge no bosque sombrio,
Manda o vate canções deleitosas
Que se espalham nas ondas do rio.
E as donzelas que escutam de longe
Sentem gozo, porém de matar!…
E o cantor que soluça seus trenos
De saudade lhes manda um adeus!…
Em presença dos astros que dormem
Sob as brumas cerradas dos céus!…
E as donzelas saudosas suspiram
Para o lado que foge o cantor…
E lhes mandam mil beijos na brisa
Mil suspiros banhadas de amor

A CRIANÇA SUICIDA

Pobre criança!… Pobre… Um pensamento impuro

apagou-te da mente os sonhos infantis…

Quanta dor! quanto amor no teu semblante puro

ao ver-te só no mundo entregue aos homens vis!…

E um dia a sociedade, esse vampiro enorme,

que o sangue chupa ao justo e poupa a tirania,

essa ave negra, viu-te, arroxeado e informe,

o corpo de criança, a alma… já não via!…

Como era triste o quadro! A boca se entreabria

como s’inda quisesse um ai! Soltar ao mundo.

A negra multidão te olhava e parecia

tocada de pavor e de um ódio profundo!

Via-se em cada rosto um riso de ironia,

como desafiando os céus e o mundo inteiro.

Uma criança loira os lábios entreabria

e apontava sorrindo o corpo do caixeiro!…

E o corpo, já sem vida, o vento balouçava!

Era como uma lâmpada sombria, negra,

alumiando o povo… A multidão cismava

e ouvia-se distante a voz da tontinegra…

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Os 7 melhores livros de Adolfo Caminha:
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