As 22 melhores frases de O Lustre, de Clarice Lispector

Destaque, Listas

O Lustre é o segundo romance de Clarice Lispector. Escrito entre os anos de 1943 e 1944, é bem menos conhecido do que seus títulos famosos como A Paixão Segundo G.H. ou A Hora da Estrela, mas tão relevante quanto. Numa mistura entre uma escrita iniciante e, por isso, experimental – no melhor sentido da palavra – e aquele já consagrado modo de escrever “clariceano”, O Lustre conta a história de Virgínia e suas experiências na casa da família no interior e, sozinha, na cidade grande.

Selecionamos algumas das melhores citações do livro, para instigar todo mundo a ler este romance espetacular. Confira:

“O coração batendo num corpo subitamente vazio de sangue, o coração jogando, caindo furiosamente, as águas correndo, ela tentou entreabrir os lábios, soprar uma palavra pálida que fosse. Como o grito impossível num pesadelo, nenhum som se ouviu e as nuvens deslizavam rápidas no céu para um destino.”

“Então – não era o alívio nem de fim de susto, mas em si mesmo inexplicável, vivo e misterioso – então ela sentiu um longo, claro, alto instante aberto dentro de si.”

“(…) ela poderia viver com um segredo irrevelando nas mãos sem ansiedade como se esta fosse a verdadeira vida das coisas.”

“Quase nada fazia mas de algum modo parecia sentir-se tão enrolada na sua própria vida que mal poderia desvencilhar um braço e acenar sequer.”

“Virgínia jamais saberia que se indagava uma qualidade numa pessoa excluía a possibilidade de outras, se o que havia dentro do corpo era bastante vivo e estranho a ponto de ser também o seu contrário.”

“- O que é bom e o que assusta a gente é que… por exemplo, eu posso fazer minhas coisas… que eu tenho daqui para diante uma coisa que ainda não existe, sabe?
Daniel olhou para a frente inflexível:
– Pois então? o futuro…
– Sim, mas é horrível, não é? dizia ela ardente e risonha.”

“Mas de súbito as coisas se precipitavam numa realidade resistente.”

“Virgínia não sabia: tão difícil tomar as coisas que haviam nascido bem dentro dos outros e pensá-las.”

“Havia um deslizar impossível na sua verdade, ela era como o seu próprio erro. Sentia-se estranha e preciosa, tão voluptuosamente hesitante e estranha como se hoje fosse o dia de amanhã. E não sabia corrigir-se, deixava que a cada manhã seu erro renascesse por um impulso que se equilibrava numa fatalidade imponderável.”

“Às vezes quase aproximava de um pensamento porém jamais o alcançava embora tudo ao redor lhe soprasse o seu começo.”

“Agradecia-lhe com uma alegria difícil, frágil e tensa, sentia em… alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados – mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como o escuro, como a ausência, compreendia-se ela assentindo, feroz e muda com a cabeça. Mas nada sabia de si própria, passaria inocente e distraída pela sua realidade sem reconhecê-la, como uma criança, como uma pessoa.”




“Queria dizer e embora não soubesse o quê, só não dizia porque lhe faltava coragem.”

“Já agora nem sabia se vira o céu por si mesma como quem vê o que existe ou se pensara em céu e conseguira inventá-lo. (…) Ver a verdade seria diferente de inventar a verdade?”

“Como era fatal ter vivido. Pela primeira vez envelhecera. Pela primeira vez tinha a consciência de um tempo atrás de si e a noção desassossegada de algo a não poder tocar jamais, de alguma coisa que já não lhe pertencia porque estava completa mas que ela ainda se prendia pela incapacidade de criar outra vida e um novo tempo.”

“Assim pois lá estava ela. Assim pois lá estava ela. Não havia quem a salvasse ou a perdesse. E eis que os momentos se desenrolavam e morriam enquanto seu rosto quieto e mudo pairava à espera. Lá estava ela pois. Ainda ontem o prazer de rir fizera-a rir. E à sua frente se estendia todo o futuro.”

“Sentia em silêncio que depois de um desmaio estava no maior da vida porque não havia amor nem esperança que ultrapassasse aquela séria sensação de voo nascente.”

“(…) quanto mais vivia mais acumulava coisas inúteis das quais não poderia desfazer-se sem dor.”

“Amava então Vicente assim como os dias correm.”

“Ele se surpreendeu e que ela tivesse guardado a frase, sobretudo compreendido, e quase estendeu-lhe a mão não por vaidade mas por uma espécie de desculpa misturada a um pressentimento confuso de que eles teriam podido viver melhor (…)”

“Um estado em que ter força seria a própria morte talvez, e a única solução estaria na entrega rápida do ser, rápida, de olhos fechados, sem resistência.”

“- Você sabe, sempre o mesmo, eu não poderia ser mais feliz do que sou, eu não poderia ser mais infeliz do que sou.”

“Mas com a obstinação de um mundo que avisa com os olhos impotentes sobre o perigo, ela sentia mesmo compreender que o lugar onde se foi feliz não é o lugar onde se pode viver.”