A questão da liberdade em 1984, de George Orwell

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Em qualquer lugar, quando o termo “distópico” é mencionado, é praticamente impossível não suscitar o nome do autor e jornalista britânico George Orwell. Não à toa, o termo orwelliano se tornou uma palavra com significado além da referência ao autor, mas um termo valioso quando a liberdade é, de alguma forma, ameaçada ou prejudicada pelo uso da supervisão incessante, constante alteração de fatos ou negação da verdade. Em sua obra prima, “1984”, George Orwell conseguiu, de forma magistral, colocar a discussão sobre liberdade em voga por gerações e gerações de leitores.

Em “1984”, seguimos o dia-a-dia de Winston Smith, um operário do governo responsável por retroativamente alterar as notícias de forma que o Estado, representado pela figura do Grande Irmão, sempre esteja como provedora absoluta de todas as boas coisas na sociedade. Sociedade esta da Pista de Aterrissagem Número 1, que para nós, leitores, nada mais é do que a ilha da Grã-Bretanha e a Irlanda. O mundo está mergulhado em guerras perenes entre três superpotências – Oceania, Eurásia e Lestásia, com inimigos e aliados mudando constantemente de posicionamento de acordo com a conveniência. E, a cada mudança, os fatos são modificados (de maneira irônica, até) pelo Ministério da Verdade.
Após a leitura da obra de George Orwell, a sensação de desespero e impotência é avassaladora. A construção da distopia é feita de uma forma que faz o leitor questionar todas as pequenas liberdades das quais ele desfruta diariamente – e que nunca considerou o real valor até encontrar uma alternativa tão cruel. Sabe quando falta luz na sua casa e aí você dá o valor à energia elétrica? É tipo isso. Em toda virada de página, encontramos uma nova tinta para essa realidade distópica. A esmagadora vida a serviço do Partido, as sutilezas da novilíngua, a língua desenvolvida pelo governo de forma a diminuir palavras já existentes, reduzindo seus significados e, lentamente, restringindo a capacidade de pensamento da população. Se não conseguem pensar em algo, é porque este algo não existe.

Inevitavelmente, “1984” faz com que o debate sobre liberdade surja naturalmente na cabeça do leitor. Mais assustador do que a ideia de um Partido único que observa tudo e todos vinte e quatro horas por dia, é de fato enxergar essa opressão nos pequenos atos cotidianos. A teletela, uma televisão cujo observador é também observado, priva o morador de quaisquer liberalidades domésticas. O prazer carnal não existe – o único intuito do ato é a procriação; qualquer prazer é inibido e tudo, absolutamente tudo que é feito é em nome do Grande Irmão.
Caminhar pelas ruas de Londres, que, para nós, afastados da realidade distópica de George Orwell, pode ser uma das atividades mais prazerosas em uma das cidades turísticas mais visitadas do mundo, se torna uma marcha para a agonia; a incapacidade de pensamento e a castração intelectual da população da Oceania estão presentes com peso em cada parágrafo.

Poderíamos tratar com mais carinho do enredo, da aventura do protagonista Winston Smith – que, no início da obra, se vê questionando as mesmas coisas que nós, leitores, questionamos. Entretanto, a leitura de “1984” é tão rica na sua ambientação que o mero comentário sobre o universo criado por Orwell é suficiente para sufocar – e instigar os que nunca leram – os curiosos. O Estado totalitário descrito em “1984”, uma vez lida a obra, se torna quase uma personagem. Quaisquer decisões de aumento de vigilância no mundo real se tornam suscitam o debate interno entre liberdade, privacidade e até que ponto nó estamos dispostos a aceitar que tenhamos a vida privada de alguma forma vigiada. Ao descrever um Estado sem quaisquer liberdades de absoluta opressão, George Orwell fez com que todos dessem valor à liberdade e à privacidade.