Nunca Houve Tanto Fim Como Agora, a vida ao relento de Evandro Affonso Ferreira

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“Aquilo que era eu já agonizou, mas este morto, incessante, ainda me repete.”
Juliano Garcia Pessanha


Autor:
Evandro Affonso Ferreira
Editora: Record, 2017
Páginas: 160

Uma vida sem teto, sem parede, sem limites ou bordas, ou talvez, uma vida ao Relento, nas bordas transparentes da cidade, do frio e da desproteção. Quais palavras são capazes de cobrir esta vida? Quais palavras são possíveis de dizer aquilo que espanca nossa face todos os dias nas ruas, mas que, de palavras, parece mudo? Ranho, remelas…essas foram as palavras encontradas por Evandro Affonso Ferreira para nos apontar para esta desproteção daqueles que não têm quem voz proteja a não ser a si próprios e seu pequeno grupo. Sim, a metáfora é esta: ranhos, remelas, as secreções, a exceções de um corpo dizem deles o que eles são. E para muitos na sociedade, são isso que eles são.

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Nunca Houve Tanto Fim Como Agora é um romance de Evandro Affonso Ferreira que conta a história de um grupo de meninos e meninas em situação de rua. Uma farândula, como chama o autor, formada principalmente por Seleno, Ismênio e Eurídice, que têm as ruas como companheira e nela trocam suas experiências de vida. Diante todo o tempo da morte, do frio, das dores e da desproteção, conseguem, ainda assim, criar entre seus corpos uma pequena zona de afeto, de troca de significados do que seria isto que se chama vida.

Seleno, o narrador, conseguiu sair desta vida ao ser retirado das ruas por uma mulher que se torna sua amante e protetora. Assim, ele conseguiu acessar estudos, ler sobre cultura, história e poesia, o que, de certa forma, garantiu a Evandro que sua narrativa pudesse ser composta e percebida através de imagens literárias. O interessante do livro, no entanto, está na formação dessa dimensão baixa desta vida, de como a vida na beira do mundo permite uma liberdade impossível e, quiçá, fragilmente libertadora. A morte, uma eterna companheira, se torna alguém a espreita, que ao mesmo tempo que aprofunda a dor da vida, coloca sempre um alento aos corpos feridos, ao mesmo tempo em que a linha se torna a testemunha, aquela que faz a passagem de um mundo a outro.

*Sobrevivi, apesar dos sobressaltos da belicosidade dos dias, apesar dos anos moribundos.

Pode-se dizer que o desejo de tornar a situação de vulnerabilidade, de sofrimento, diante do relento, em algo transposto em palavras, por um lado, cumpre um papel de urgência, na medida em que mapeia e faz uma denúncia necessária de que há afetos onde quer que seja. Além disso, faz uma intensa pesquisa na língua de como se dizer algo que não se coloca passível de ser dito, ou se apresenta sempre nas entrelinhas da palavra. No entanto, ao mesmo tempo, infla destas palavras palavras um ambiente talvez mais elíptico, mais cru de pensamento (por isso mais forte, potente, rico), que não se deixa embarcar nos perigos da língua. Talvez uma narrativa mais fabianesca, à lá Vidas Secas, em que o pouco que se fala aponta para uma rispidez do pensar transformado em vasto repertório para aguentar a dor, nos mostraria mais ainda o abismo, o vazio e a iniquidade da situação. Ao invés das palavras falarem, poderiam deixar o Relento, o ranho e a remela falarem, estáveis, naquilo que são.

Dizem que Deus sabe tudo, mas uma coisa que ele não sabe: dividir edredons.

Apesar disso, e talvez para desfazer o que acabei de dizer acima, há um ponto interessante da obra que destaco. Trata-se de uma característica interessante apontada por Evandro – e isto talvez possa passar despercebido – de todo trecho começar com um asterisco. Esta singeleza, essa pequenez no gesto de escrever, ao mesmo tempo que torna todo romance, de certa forma, uma espécie de nota de rodapé de outro texto, como se este texto fosse um menor em relação a outro, uma miniatura, uma explicação, um adendo, uma nota. Assim, a narrativa perde este caráter da dimensão da epopéia e passa, na linha de Deleuze ao falar de Kafka, a uma literatura menor, que se dimensiona pelo canto da língua.

A experiência de Nunca Houve Tanto Fim Como Agora é intensa. Trata-se de um dos melhores lançamentos de 2017 e, salvo as ressalvas feitas, é uma obra importante de ser feita diante do mundo que estamos. O jogo de língua, de pensamento, da aventura de Evandro ao Relento é vasta, encanta e nos coloca diante de um mundo que, muitas vezes, preferiríamos silenciar.