Pra Conhecer #8: a angustiante e (quase) infinita arte de Assis Brasil

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Na perspectiva da modernidade a grande questão do homem não é “o que fazer com a morte?”, mas sim “o que fazer com o morto?”. A morte, nesse caso, tem a noção abstrata e não corporificada da perda da vida, ao contrário do morto que é resto, dejeto de ser encarnada em uma carcaça. Encarar o morto está, então, na pergunta “o que fazer com ele?”.

Creio que podemos colocar a mesma questão em relação ao texto (nesse sentido, chamo de texto o que seria a prosa, a poesia, enfim, a arte escrita): “O que fazer com o texto?” A pergunta parece fazer sentido quando se pensa em uma estrutura social montada no viés econômico da acumulação, do lucro e da proposição da desindividuação em prol da expansão da virtualidade de uma imagem, ou seja, uma maneira de tornar o corpo enquanto forma de resistência, impulso erótico e capacidade de intervenção social em algo asséptico, higiênico, padronizado, mecanizado, incapaz de produzir sentidos que não sejam os veiculados pelas fontes de informação e poder. Nessa perspectiva, pretendo analisar algumas obras de Assis Brasil, autor de mais de cem livros que parece que foi esquecido pelos cânones da literatura brasileira.

A primeira obra que quero pensar é a mais famosa do autor, Os que Bebem como os Cães (1975). Este livro parece atualizar essa pergunta ao expor um corpo que, segundo o sistema, devia estar morto. O livro é sobre Jeremias, um homem trancado e algemado em uma cela em que mal pode ver, andar e comer, ou seja, está reduzido às situações mínimas da condição dita humana. A composição da obra em três partes cíclicas “a cela, o pátio e o grito” dão a dimensão de uma narrativa atrofiada, que não tem para onde escapar, que parece também encarcerada por esse poder autoritário abstrato que ronda o texto. Jeremias não tem memória e cumpre uma pena que já não lhe cabe. Tem no cotidiano entre as três partes a necessidade de compor sua nova existência e, por que não dizer, agora articulando o sentido político da obra, sua nova resistência.

Pois o que me parece estar em jogo no procedimento de Assis Brasil é testar os limites da narrativa enquanto resistência, no sentido de que se compõe uma obra que resista ao mundo, a si própria, à personagem Jeremias, ao sistema político e teológico, e por fim, uma obra que resista à palavra.

A dimensão da palavra parece ser importante justamente pelo fato de que Jeremias, essa personagem quase muda em Os que Bebem como os Cães, possui uma relação direta – tema corrente na obra de Assis – com o Jeremias, profeta bíblico. Enquanto que na Bíblia, um foi posto “neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares” (Jeremias 1:10), o outro do livro tenta não ser destruído, tenta não virar ruína e, tal qual na Bíblia, não deve ou não deveria fazer uso da palavra. Para isso, Assis Brasil derruba Jeremias do altar teológico e em mais um movimento de queda metamorfoseia seu herói em uma dimensão animal – que pode ser vista na obra na espécie de parceria com o próprio alimento que a personagem compartilha com um rato – assim como também no som que esse sujeito emite para o mundo: um grito. Um grito que nasce dos outros, também Jeremias, e que se espalha por aqueles que no pátio que transitam na dimensão entre humano-animal ao se limparem em tanques.

Outra obra que quero pensar é O Aprendizado da Morte (1967), na qual Assis Brasil trata de Olga, personagem desenganada com leucemia e com poucos meses de vida em sua preparação para a morte. Essa narrativa que, a priori, parece muito mais extensiva e expandida que Os que Bebem como os Cães, apresenta também um problema: uma nova espécie de circularidade narrativa que atrofia a dimensão fabular e expõe, novamente, uma questão em que a palavra precisa lutar contra a personificação e narratividade para dar uma dimensão mais profunda, mas ao mesmo tempo, exposta na superfície da secura-molhada da linguagem escorregadia. A obra começa também como um capítulo chamado “A cela”, mas com a seguinte frase: “Não era uma cela, sentia.”

Se em Os que bebem… Jeremias sentia na metamorfose do seu corpo em animal as agruras desse caminho em direção à morte, em O Aprendizado da Morte, os passos de Olga são uma espécie de despedida da vida, no reencontro de pequenos pontos de sua história, mas que compuseram aquilo que ela é. Essa aprendizagem da morte que fará Olga tem um caminho similar de uma obra do mesmo período Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres de Clarice Lispector em que a personagem Lori é iniciada por Ulisses no mundo do prazer. Os procedimentos são parecidos e as perspectivas de seres Iniciantes – título do livro de contos do poeta Raymond Carver, americano da mesma época de Assis e Clarice – ou seja, aqueles que não sabem, que desconhecem e por isso precisam aprender, estão colocadas em ambas as obras e me parece que as duas pulsões – prazer e morte – são similares na medida em que expõe o corpo a tensões limites e zonas de ambivalências de um mistério inexplorado.

Pode-se dizer, então, que tanto Olga como Jeremias são seres em espécie de limbo – num limiar entre vida e morte – manifestando político-teologicamente em seu corpo aquilo que pode ser lido, pensando no conceito de Nietzsche como uma pulsão de morte. São personagens que atravessam um caminho similar à imagem da via crucis, ou seja, tem passos marcados, cíclicos, previstos por aquele que narra e deve atravessá-los até seu fim.

Creio que se pode tentar agora responder a pergunta inicial que fiz sobre “O que fazer com o texto?” na perspectiva daquilo que resiste à morte ao mesmo tempo em que expõe uma mortalidade. Assis Brasil, me parece, trabalha na linha limite que a linguagem permite e, justamente por isso, precisa desdobrá-la em suas obras que, uma vez dentro da obra, precisa dar conta da fenda que a anterior abriu. O Sol Crucificado, por exemplo, centésimo livro dele, é a prova de que passados vinte, trinta anos, Assis precisa ainda proliferar palavras para evitar esse pedaço de morte, como se, no momento em que ele parar de escrever, morrerão todos os livros em ordem decrescente e sua obra estará, por fim, metamorfoseando-se em livro-defunto, um livro que é vencido pela força de não dizer. Assis Brasil escreve muitos livros porque está, no fundo, escrevendo apenas um, eternamente, até a morte do seu eu-texto. A morte parece, para Assis Brasil, um inimigo muito sério, que de tão sério, tão importante e tão crucial para o que se ousa chamar de vida, não pode sair de seu lado.