Noite na Taverna e os universos de cada um

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Noite na Taverna é uma das obras mais conhecidas e discutidas da Segunda Geração Romântica brasileira. Com os sentimentos ultrapassando a razão e o individualismo tomando conta da sociedade, Álvares de Azevedo atinge a universalidade com os temas abordados na sua obra a partir do tratamento individual. Das personagens e seus nomes, às lembranças que nos transportam para os mais diversos ambientes, a obra, que nunca pretendeu pertencer a um lugar como faziam os autores da geração anterior, atinge seu objetivo e toca a todos sem nem sair da Taverna. A partir do indivíduo, Álvares alcança toda e qualquer sociedade que o ler, e isso para muito além de ser capaz de provocar repulsa com as terríveis e ébrias histórias que suas personagens dão vida.

Há diversas discussões sobre a função da Taverna na história, seja como local em que os homens se reúnem para se inebriarem – como uma permissão para que o id tome conta das ações e assim se saciem seus desejos – seja como precursor de uma série de histórias mentirosas contadas por homens que querem parecer uns maiores que os outros. Eu abordarei aqui, leitor, a Taverna como o local no qual cabe todo um universo e discussão inesgotável – e não sobre a mente humana. Considerando-a como local de reunião e ponto de encontro de variados homens, percebemos que lá, um ambiente sem pátria, há duas pessoas – a taverneira e o homem que a ajuda – que aparentemente vivem lá e, pelo enredo e função, são “encarregados” de embriagar os homens, e desses, em especial, há os seis personagens principais que em meio à supressão do consciente, nos levarão junto às suas histórias.

Desses boêmios, notamos que seus nomes já nos levam a crer de onde são: Johann tem origem alemã, Bertram é dinamarquês e sua história inicialmente se passa na Espanha, Sofieri é italiano, Laura e Ângela são nomes de origem grega e latina respectivamente… e assim se segue. no entanto, como afirmou Antônio Cândido – se me lembro bem -, curiosamente nenhuma dessas personagens carrega traços culturais bem demarcados. Cada qual veio de sua pátria, e surpreende na extravagância de seus comportamentos corruptos, deploráveis e imorais – e que assim continuariam o sendo em qualquer parte do mundo ocidental e, a depender, do mundo todo, não acha, leitor?

O único ponto, porém, em comum que eles têm além desse tipo de comportamento: é a Taverna.

Você pode não conhecer bem a Dinamarca, ou saber sobre o clima espanhol, tampouco a geografia de Roma, mas sua mente, com certeza, é capaz de conceber um cemitério, um navio em alto-mar, uma casa ou até um desfiladeiro. Da Taverna, um lugar único e pequeno, vamos para as diversas partes do mundo, e de lá, somos levados a lugares comuns a todos por meio das várias narrativas. Do macro para o micro, Álvares faz com que a sociedade seja retratada por meio de pontos individuais (únicos) porém comuns. Além disso, notamos que sem a presença da Taverna, o mais comum e único lugar – de união -, a história perderia seu sentido, tendo em vista que ela é o ponto de encontro e final do enredo.

Agora, saindo do plano material e partindo para o além-físico, vemos, leitor, como já explicitado, que os temas que são abordados saem da boca de cada uma das personagens para causar repulsa em todas as outras, e, apesar de parecerem ter o mórbido desejo de contar a pior história da mesa – como numa competição -, a partir do tratamento individual que se dá em cada personagem, uma a uma, nós, meros leitores, somos abatidos pelo egoísmo, traição, necrofilia, assassinatos, suicídios, aborto, orgias, incesto… incessantemente no decorrer dos contos – cadê George R. R. Martin?

O que há de pior com o indivíduo e a crueldade do homem nos acerta sem piedade. e quando se exprime o que há de pior em alguém, é em relação àquilo que o rodeia, ao que sua sociedade pode apresentar de pior.

Toda essa discussão nos fazer perceber que a Taverna, tal como o Romantismo em seu Mal do Século, traz um individualismo tão forte que não se permite deixar de ser universal, tocando um a um que lê sua obra em repulsa – o que reforça o bem e os valores universais pela mostra “pura” do mal. Pode ser que em certos momentos sejamos levados a pensar que, embebidos no próprio egocentrismo, os homens contam nada mais que mentiras para se engrandecerem perante os outros – que também entra no conceito anterior – mas é inegável que, em matéria de alcance, Noite na taverna é capaz de nos transpassar com os absurdos do eu.