Leituras #49: Caixa de Pássaros, de Josh Malerman

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O romance de estréia do escritor e músico americano Josh Malerman definitivamente é uma das melhores formas de entrar no mundo da literatura causando uma ótima impressão. O livro, narrado em terceira pessoa, apresenta ao leitor um mundo tomado por criaturas as quais, quando vistas por qualquer pessoa, fazem com que ela se mate ou assassine alguém de maneira terrivelmente brutal e repentina. Portanto, para fugir de tal destino, a protagonista da história e seus companheiros nunca abrem os olhos fora de casa e até mesmo andam vendados quando precisam sair. A constante aflição de eles talvez não estarem sozinhos a cada segundo que andam vendados no mundo externo e o grande mistério que é a aparência das criaturas que os rondam são alguns dos fatores que tornam a narrativa tão forte no quesito prender a atenção do leitor.

O livro é dividido em capítulos que contam sobre épocas diferentes: em um capítulo, vemos a protagonista, Malorie, em um barco em direção a algum lugar que não sabemos qual é, acompanhada de duas crianças de quatro anos. Só eles três e mais ninguém no barco. Os três vendados, remando na escuridão. Metade dos capítulos nos mostra a trajetória deles pelo rio, e a outra metade, que segue intercalada com as cenas do rio, nos mostra Malorie em uma casa onde ela encontrou mais sobreviventes. Nessa época, ela ainda estava grávida, e lutando para entender como pode ser possível sobreviver em um mundo de trevas.

Além da ideia do romance ser bastante original e ser uma leitura leve, que flui facilmente e prende a atenção por horas, o livro também faz interessantes mergulhos no psicológico dos personagens: por exemplo, em circunstâncias em que eles se questionam se as criaturas realmente afetam a sanidade de qualquer ser humano, ou se eles mesmos estão perdendo a sanidade ao viver nas trevas devido ao seu medo do desconhecido (pois as criaturas permanecem como algo desconhecido durante toda a narrativa, sendo que ninguém que as vê sobrevive para contar sobre elas).

Outra interessante observação do narrador, quando este mostra o ponto de vista dos personagens, é em um momento em que Malorie compara sua vida, presa na casa, com uma caixa de pássaros, e se questiona se não há mais uma tampa fechando o mundo por fora da casa, e outra tampa por sobre esta e assim infinitamente, de forma que vivemos todos presos em caixas de escuridão. Além disso, toda a ambientação do livro consegue se utilizar constantemente do maior medo da humanidade, o qual, segundo H.P. Lovecraft, é o medo do desconhecido, nos mostrando um mundo em que as pessoas vivem o desafio de enfrentar tal medo e desbravar o desconhecido para conseguir sobreviver. Cada passo é literalmente um passo na escuridão, onde não se pode ter certeza de nada. E, de certa forma, é isso que é viver no mundo real, não é mesmo? O mundo lá fora, por mais iluminado que possa estar, acaba muitas vezes sendo um oceano de trevas, pois nunca podemos ter certeza absoluta do que vem pela frente. Só nos resta remar pelas sombras e ter coragem. Talvez o livro de Malerman seja assustador exatamente por isso: porque sua narrativa fantástica de terror ecoa de forma metafórica um dos aspectos mais assustadores da vida, e sem enfrentá-lo não é possível sobreviver. Ele nos mostra que é preciso saber quando abrir os olhos. E quando fechá-los também.