Porque Alice, de Lewis Carrol, não é literatura fantástica

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“’Acorde, Alice querida!’ disse sua irmã. ‘Mas que sono comprido você dormiu.’
‘Ah, tive um sonho tão curioso!’ disse Alice, e contou à irmã, tanto quanto podia se lembrar delas, todas aquelas estranhas aventuras que tivera e que você acabou de ler; quando terminou, a irmã a beijou e disse: ‘Sem dúvida foi um sonho curioso, minha querida; agora vá correndo tomar seu chá, está ficando tarde’” (p.146)

Um dos trechos finais, que o leitor – ou até mesmo quem viu o filme, seja da Disney, seja do Tim Burton – consegue reconhecer. Alice, após viver todas aquelas loucas aventuras retorna ao mundo real. Uma história, realmente, fantástica, não é, leitor? Dependendo do sentido dado a fantástico, sim, mas talvez este enquadramento não seja o suficiente. Utilizaremos – eu e você, leitor – uma definição que pode ser considerada um pouco arcaica ou formal demais para literatura fantástica, baseada num texto de Tzvetan Todorov, mas ampliando em uma visão em um ensaio/palestra de J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) para entendermos por que “Alice no País das Maravilhas” e – até mesmo – “Alice Através do Espelho” não são histórias de Literatura Fantástica e, tampouco, de Contos de Fadas.

Primeiramente, faz-se necessário que distingamos Literatura Fantástica de Contos de Fadas. Alguns críticos modernos incluem Contos de Fadas como um subgênero dentro do Fantástico, mas, de acordo com Todorov são gêneros diferentes. Para o búlgaro, o Fantástico se encontra na hesitação entre dois pontos: o primeiro seria o Estranho, este que se define por uma história de cunho literário que pode ser explicada, em si mesma, de maneira racional; o segundo, seria o Maravilhoso, que pode ser explicado por meio do sobrenatural. Um exemplo de história que se encontra no nível Estranho, seriam os thrillers policiais; e de nível Maravilhoso, seriam os contos de fadas. Todorov, no entanto, nos atesta que algumas histórias sobrenaturais agiriam de maneira surpreendente que poderiam causar uma hesitação tão forte no leitor – devido a uma falta de explicação provocada – que se produziria o efeito do fantástico.

Já, para explicarmos o que são Contos de Fadas, de uma maneira não tão simplória, como uma história sobrenatural, seguimos a linha de Tolkien em “Sobre Histórias de Fadas”. Segundo o Professor, os Contos de Fadas não podem ser considerados como uma história que trata de um segundo plano, avulso à Realidade. Para ele, o Belo Reino – mundo das fadas – existe em concomitância com a nossa Realidade e nós não somos capazes de percebê-lo, fazendo assim, com que a arte seja uma mera subcriação do mundo Maravilhoso que já existe, podendo chegar próximo ao limiar deste mundo ou manter-se mais afastado. Conforme diz Tolkien – e essa explicação se enquadra também na conceituação de Todorov – uma história de fada não pode se tratar de uma alegoria, pois, a sendo, o sentido de fazer-se uma história real se perde, ou seja, não se trata nem de uma subcriação que permeia ao mundo maravilhoso, mas sim uma metáfora. O mesmo se dá com as fábulas em que as criaturas não agem como tal, mas sim adquirem comportamento e personalidades – arquetípicas, na maioria dos casos – humanas. E para Todorov, uma alegoria daria uma explicação racional a qualquer história, por mais sobrenatural que fosse.

Além desses pontos, Tolkien diz que um Conto de Fada oferece, de maneira muito peculiar, a Fantasia, a Recuperação, o Escape e o Consolo – que curiosamente os mais velhos precisam mais que as crianças, mas não nos permitamos entrar no mérito de quem deve ler contos de fadas aqui, leitor. Abordaremos rapidamente pois os pontos são interessantes e podem ser aplicados no livro de Lewis Carrol. Fantasia traria a imaginação, mas não a imaginação em termo comum, como o “poder de dar criações ideais à consistência interna da realidade”, mas sim algo que vem com as cores, com a ambientação, algo que vem além do enredo, de maneira sutil e breve que alimenta a mente. Já sobre a Recuperação, Tolkien vê que os Contos trazem de volta a sensação de descoberta de tudo que se tem quando criança, além disso nos traz antigos desejos e satisfações imaginativas. Sobre Escape há muita gente que faz maldito o termo, mas o Professor nos dá a bela metáfora de não confundirmos o Escape de um Prisioneiro que vê o mundo lá fora entre a janela e a fuga de um desertor. E, por consolo, o autor diz que é o famoso “felizes para sempre”, que nos mostra que mesmo após grandes sofrimentos, ou os acontecimentos, o Belo Reino continuará bem, também delimitando a história em um espaço de tempo na sua “eternidade” independente do conto que nele se passa.

Agora, leitor, com certos pontos conceituais importantes para a nossa definição ficar bem embasada, podemos começar a aplicá-los às histórias de Lewis Carrol. Desses quatro pontos que as Histórias de Fadas passam, identificamos que Alice não possui, ao menos uma, que seria o Consolo. Em ambas as histórias não há o famigerado “Felizes para Sempre”, nem de maneira sutil, tendo em vista que as palavras exatas no fim não são estritamente necessárias; não há também uma moral certeira e identificada inerente ao conto, na verdade, Alice até busca criticar a forma de educação dada na época em que o autor está inserido, trazendo, menos uma moral – como regra geral – e sim uma crítica de atitudes específicas.

Por fim, o trazer-se para realidade de Alice nos leva a razão e a máxima para comprovarmos, leitor, se o Romance é ou não de Literatura Fantástica, ou um Conto de Fadas. Lembra-se da citação no início da matéria? Então, Alice é um romance onírico, e tanto “no País das Maravilhas” quanto “Através do Espelho” se tratam de histórias que se passaram, por lógica, na mente de Alice, ou seja, não foram uma subcriação de um reino mágico contido na realidade, as criaturas mágicas só existem na mente da criança, não sendo tratadas como verdadeiras. Tampouco, ambas as histórias de Carrol nos deixam dúvidas acerca de uma explicação natural ou sobrenatural dos acontecimentos, a explicação, exatamente por ser um sonho, é puramente racional. Alice não é Literatura Fantástica, tampouco um Conto de Fadas.

Alice é Alice.

“’Vossa Vermelha Majestade não devia ronronar tão alto’ disse Alice, esfregando os olhos e dirigindo-se à gatinha de maneira respeitosa, mas com certa severidade. ‘Você me acordou de um… oh, um sonho tão lindo” E esteve junto comigo, Kitty… por todo o mundo do Espelho. Sabia disso, querida?’” (p. 313)

Revisado por Carlos Cavalcanti

REFERÊNCIAS:

CARROL, Lewis. Alice: Aventuras de Alice no País das Maravilhas & Alice Através do Espelho e o que Alice Encontrou por lá. 1 ed. RJ: Zahar, 2010.

TOLKIEN, John Ronald Reuel. Sobre Histórias de Fadas. 2 ed. SP: Conrad, 2010.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. 4 ed. SP: Perspectiva, 2012.