As 15 melhores óperas de todos os tempos, segundo o The Guardian

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Para os amantes de ópera, fica a nossa desculpa: não, essa lista não é nossa. O jornal inglês The Guardian publicou uma lista, partindo de diversos especialistas, elegendo quais seriam as 15 melhores óperas da história. É claro que o tema será sempre controverso, mas o objetivo aqui não é legitimar algumas e ignorar outras, mas promover que possamos ver e conhecer cada vez mais essa arte que fica sempre a margem de um grande público. A lista está em ordem alfabética de acordo com o ano de estreia. As sinopses foram retiradas do incrível site Euterpe!

Confira:

1- L’ORFEO, de Claudio Monteverdi

Mântua, Itália, c. 1607

Com um músico como herói mitológico, L’Orfeo surge como a primeira grande ópera da história. Monteverdi foi o pai-fundador deste gênero musical. No início da ópera, o “Espírito da Música” explica o poder da música, e especificamente o poder de Orfeu, cuja música é tão poderosa que é capaz de mudar a atitude dos próprios deuses. Eurídice morre de uma picada de cobra. O triste Orfeu, por meio de sua música, tenta salvá-la do submundo. Tema lírico muito popular (musicado por Gluck, Offenbach, Glass), L’Orfeo é emocional, melancólica e transcendente. Outro belo trabalho de Monteverdi é L’Incoronazione di Poppea.

 

2 – DIDO AND AENEAS, de Henry Purcell

Londres, Reino Unido, 1689

Único sucesso operístico em inglês até o século 20, a história é baseada no livro IV de Eneida, do poeta romano Virgílio, que narra o amor da rainha de Cartago Dido, pelo herói troiano Enéias, que a leva ao desespero quando é abandonada por ele. Além de marinheiros e bruxas, Purcell nos deu um dos lamentos mais sublimes em ópera: a ária “When I am laid in earth”, que Dido canta antes do seu suicídio. É uma ópera sonoramente colorida e curta, durando cerca de 50 minutos. Um Purcell mais grandioso pode ser encontrado em The Fairy-Queen.

 

3- GIULIO CESARE IN EGITTO, de Georg Friedrich Händel

Londres, Reino Unido, 1724

Um épico de amor e guerra, geralmente considerado o melhor trabalho de Händel, Giulio Cesare tem uma trama ricamente construída, com o bônus de uma Cleópatra brilhantemente caracterizada e escandalosamente sedutora. César, escrito para castrato, é geralmente cantado por um contratenor. A ópera é longa, mas está recheada de belas árias, duetos, com trompa solista, violino imitando passarinho, melodias arrebatadoras. Talvez seja essa a mais bela ópera de todo o Barroco. O melhor de Händel também pode ser ouvido em Rodelinda, Alcina, Ariodante e Rinaldo.

 

4- LA SERVA PADRONA, de Giovanni Battista Pergolesi

Nápoles, Itália, 1733

Essa ópera ligeira e despretensiosa, com uma divertida história de apenas três personagens, sendo um deles mudo, tornou Pergolesi conhecido internacionalmente. Foi escrita apenas para preencher um intervalo entre os atos de outra ópera. É considerada a primeira ópera cômica. Traz uma criada namoradeira que finge ser a própria patroa para enganar o amante. Suas melodias são fascinantes. A peça foi o estopim de uma polêmica que agitou os meios musicais franceses muito após a morte de Pergolesi: a Querela dos Bufões. Em 1752, uma companhia italiana apresentou La Serva Padrona em Paris, no intervalo da ópera Acis et Galatée de Lully. Foi o suficiente para despertar a fúria entre os partidários da tradição francesa e os defensores do estilo italiano.

 

5- ORFEO ED EURIDICE, de Christoph Willibald Gluck

Viena, Áustria, 1762

Escrito em italiano, esse drama intenso foi posteriormente revisto como o francês ORPHÉE ET EURYDICE. Traz uma mistura de antigos e novos estilos, no caminho para o Romantismo. É considerada uma das óperas-chave do século XVIII. Foi a primeira manifestação da reforma sobre a ópera planejada por Gluck, que focava a ação dramática, em lugar das distrações virtuosísticas. Já no início se percebe sua beleza diferenciada: um coro lamenta a morte de Eurídice em som grave e profundo, enquanto Orfeu chora por ela num canto estratosférico. O momento mais famoso da ópera é a ária “Che farò senza Euridice?”, que virou ária de concerto de inúmeros cantores. Outras preciosidades de Gluck são: Iphigénie en Tauride, Paride ed Elena e Alceste.




6- LE NOZZE DI FIGARO, de Wolfgang Amadeus Mozart

Viena, Áustria, 1786

Juntamente com Don Giovanni e Così Fan Tutte, que compõem o trio de obras-primas de Mozart com libreto de Lorenzo da Ponte, Figaro é considerada por muitos a ópera perfeita: um balanço de sagacidade, humanidade e música sublime. Por satirizar certos costumes da nobreza, a obra gerou polêmica na sua estreia. Um dos seus pontos fortes é a riqueza dos conjuntos vocais, mais eficientes na condução da ação dramática do que os antigos recitativos. À medida que o drama se intensifica, Mozart sofistica a escrita, trazendo os personagens ao palco, numa complexa rede de solos e conjuntos cantando em múltiplas combinações, e um clímax de sete, oito vozes no segundo e quarto atos. Brahms chegou a afirmar: “Em minha opinião, cada número de Figaro é um milagre; está totalmente além de minha capacidade entender como alguém criou algo tão perfeito; nada jamais foi feito assim, nem mesmo por Beethoven”.

7- MÉDÉE, de Luigi Cherubini

Paris, França, 1797

Medeia foi composta a partir da tragédia de Eurípides e da peça de Corneille. A primeira versão da ópera, em francês, teve uma recepção pouco entusiástica. A mais bela, em italiano, estreou em Viena, em 1802. O papel da figura mitológica é famoso pela dificuldade em interpretar a vingativa protagonista. Algumas das famosas intérpretes do papel incluem Maria Callas, Dame Gwyneth Jones e Montserrat Caballé. A música molda com perfeição o caráter maternal e assassino de Medeia de forma sombria, enérgica e tensa, de acordo com a crescente tensão do drama. Com a faca banhada pelo sangue dos filhos ao final, Medeia desaparece diante das chamas do templo onde estava refugiada, enquanto a população corre desorientada de um lado para outro no palco. Nessa agonia, fecham-se as cortinas.

8- IL BARBIERE DI SIVIGLIA, de Gioacchino Rossini

Roma, Itália, 1816

Puro, engraçado, delicioso, efervescente, terrivelmente difícil de cantar: O Barbeiro de Sevilha, escrito em duas semanas por um compositor que já havia escrito 35 óperas com 37 anos de idade e logo se aposentou, encabeça a lista de todas as comédias em forma de ópera. Muito além do famoso “Figaro cá, Figaro lá”, a obra-prima de Rossini traz um impecável libreto absolutamente conectado com a música ideal, cheia de ritmos marcantes, melodias irresistíveis e situações muito engraçadas. É a primeira parte da mesma peça que gerou Le Nozze di Figaro, de Mozart, 30 anos antes. Sua estreia foi um fracasso, graças a partidários de rivais do compositor e acidentes no teatro – chegou a haver incêndio. Tudo mudou rapidamente e, logo após uma semana, a obra já era um sucesso imbatível.

9- NORMA, de Vincenzo Bellini

Milão, Itália, 1831

Ostentando a famosa ária “Casta Diva”, Norma é a grande tragédia do Bel Canto e apresenta uma sacerdotisa druida que, secretamente, tem dois filhos com um amante delinquente, o que trará resultados catastróficos. O papel principal é geralmente avaliado como um dos mais difíceis do repertório de soprano. Foi criado para a maior cantora da época: Giuditta Pasta. Durante o século XX, apenas um pequeno número de vozes foi capaz de desempenhar Norma com sucesso: Rosa Ponselle, no início da década de 1920, Dame Joan Sutherland, a partir da década de 1960, e, mais recentemente, Montserrat Caballé, Beverly Sills e Edita Gruberova. Maria Callas foi a mais famosa Norma no período pós-guerra. Ela o representou cerca de 100 vezes.

10- LUCIA DI LAMMERMOOR, de Gaetano Donizetti

Nápoles, Itália, 1835

Ninguém oferece uma melhor “cena da loucura” com coloratura – hábito da ópera romântica do século XIX – do que Donizetti em sua Lucia. Até a metade do século XX, a protagonista era interpretada por sopranos ligeiros de coloratura, com vozes pequenas e ágeis e registro agudo brilhante e fácil. A ópera era até então considerada pouco dramática e associada apenas às pirotecnias vocais das cantoras. Foi Maria Callas que iniciou uma nova forma de cantar e representar Lucia, intensificando sua carga dramática. Em 1959, Dame Joan Sutherland viu sua carreira decolar com uma extraordinária interpretação de Lucia em Londres. Na cena de loucura, Lucia, depois de obrigada a casar com Arturo, resolve num acesso de loucura assassiná-lo na noite de núpcias. Ao regressar ao palco, interpreta um conjunto de árias de exigência vocal extrema, expressando vários estados psíquicos, que vão desde a mais pura insanidade, até a mais suave e bela alucinação.

11- LA TRAVIATA, de Giuseppe Verdi

Veneza, Itália, 1853

Talvez a obra mais executada de Verdi, La Traviata contém elementos fortemente atrativos numa ópera, além de uma bela e impecável partitura: uma tuberculosa e decadente heroína; grandes cenas de festas parisienses; um amor ardente; um pai perturbado e uma cena no leito de morte. O libreto se baseia na peça teatral “A Dama das Camélias”, do francês Alexandre Dumas Filho, que conta a história real da prostituta Marie Duplessis, sua amante e uma das musas da alta sociedade parisiense na década de 1840. O momento mais famoso da obra é o chamado “Brindisi”, quando o tenor faz um brinde ao vinho e ao prazer, acompanhado por Violetta e convidados da protagonista numa festa em sua casa, que abre a ópera.

 

12- CARMEN, de Georges Bizet

Paris, França, 1875

Existe uma ópera mais sedutora, escandalosa e recheada de bela música? Uma dançarina cigana na fábrica de cigarro que destrói corações ao lado de uma arena de touradas é um começo ideal para uma ópera. É longa, mas a ação é emocionante – e a música, contagiante. Tudo se passa em Sevilha, ou seja, a Espanha inunda a partitura com seus ritmos marcantes. O caráter transgressor da protagonista provocou severas críticas na estreia da ópera, em março de 1875. A aclamação popular só aconteceu em outubro daquele ano, quando foi encenada em Viena, sob os aplausos de nada menos que Brahms, Wagner, Tchaikovsky e Nietzsche. A chamada “Canção da Flor” de Don José, a “Canção do Toreador” e a Habanera de Carmen são os mais conhecidos de um conjunto de vários números espetaculares.

13- DER RING DES NIBELUNGEN, de Richard Wagner

Bayreuth, Alemanha, 1876

O Ciclo do Anel é composto por quatro óperas: Das Rheingold, Die Walküre, Siegfried e Götterdämmerung – em ordem cronológica de enredo, que duram cerca de 15 horas no total. Wagner levou 26 anos para compor o conjunto. Envolvendo ouro, deuses, gigantes, gnomos, dragões, é realmente uma exploração épica do desejo humano, ambição e loucura. São criaturas mitológicas em volta do anel mágico cuja posse garante poder sobre todo o mundo. O ciclo é modelado assim como os dramas do teatro grego em que eram apresentadas três tragédias e uma peça satírica. A história do Anel propriamente dita começa com Die Walküre e termina com Götterdämmerung, de forma que Das Rheingold serve como um prelúdio. Acima de qualquer avaliação, o Anel está entre os mais poderosos monumentos de arte criados por uma única pessoa.




14- TOSCA, de Giacomo Puccini

Roma, Itália, 1900

Apelidada de “uma historiazinha ultrapassada” na sua estreia, Tosca inicia com três golpes das cordas da orquestra e não sossega até a heroína da ópera, depois de ter esfaqueado o vilão Scarpia e observado seu amante Cavaradossi morrer, saltar para a sua própria morte. Sua “Vissi d’arte” e a “E lucevan le stelle” de Cavaradossi ilustram bem o poder da ópera para ferver paixões. Puccini esbanja habilidade musical na caracterização dos personagens e ambientação das cenas. Algumas das maiores Toscas da história foram Maria Callas, Renata Tebaldi, Raina Kabaivanska e Angela Gheorgiu. O melhor de Puccini também pode ser encontrado em La Bohème, Madama Butterfly e Turandot.

15- SALOME, de Richard Strauss

Dresden, Alemanha, 1905

Ainda considerada chocante por alguns, e certamente surpreendente, Salomé, a partir de uma peça de Wilde, abre caminho para a ópera moderna com suas harmonias radicais, seus desafios vocais e sua violenta história bíblica revisitada na época de Freud. Salomé deseja João Batista. Depois de dançar nua para Herodes na famosa Dança dos Sete Véus, ponto culminante da partitura, ela pede a sua cabeça. Herodes tentou negociar: a maior esmeralda do mundo, metade do seu reino – qualquer coisa, menos isso! – mas ela está decidida: “Quero a cabeça de Iokanaan!” Derrotado, o tetrarca manda que cortem a cabeça do profeta, que é entregue a ela numa bandeja de prata, como ela havia pedido. Ela beija na boca a cabeça decepada, num delírio de sexualidade histérica e doentia…

Fonte: http://euterpe.blog.br/interpretacao-e-interpretes/15-operas-para-ouvir-antes-de-morrer