Polícia, de Jo Nesbø: a excelência do suspense policial contemporâneo

Destaque, Resenhas, Romance

Editora: Record
Ano: 2017
Páginas: 544

O que faz um bom livro de suspense policial? Os detalhes? Os personagens? A trama? A reviravolta? A confusão que o(a) autor(a) causa no(a) leitor(a)? O medo? O plot twitst? O começo? O meio? O final? Se você pensou “tudo isso” e começou a imaginar os títulos que já leu que contemplaram esta pequena listinha, está na hora de adicionar mais um item a essa lista.

O NotaTerapia já fez uma lista de 8 livros de suspense policial e psicológico que você precisa ler, mas depois de “Polícia”, de Jo Nesbø, ela certamente está desatualizada. O romance é um livro da série do detetive Harry Hole, personagem que habita inúmeros livros de Nesbø e que é conhecido por sua perspicácia, sagacidade, inteligência e tendência a beber demais. Assim como Tess Gerritsen e sua série de livros sobre a detetive Jane Rizzoli e a médica legista Maura Isles, Nesbø constrói seu personagem principal no decorrer dos livros, mas de um modo que quem lê um dos livros não necessariamente sente falta daquilo que já foi discutido antes; porém, se você lê toda a série, consegue ter uma visão mais completa e complexa do personagem. O mesmo ocorre, no caso de Nesbø, com alguns outros personagens importantes, que já em O Boneco de Neve, talvez o livro mais famoso do escritor, eram acompanhados pelos(as) leitores(as).

Em Polícia, um assassino está retornando a cenas de crimes não solucionados e matando policiais envolvidos com o caso. A equipe da polícia norueguesa precisa da ajuda de Harry Hole para identificar quais as motivações do assassino para, então, descobrir quem está por trás dos bizarros assassinatos. Nesta busca, não só Harry mas toda a equipe vai descobrindo, aos poucos, que também está em risco.

É importante pontuar que, por se tratar de uma história que se passa na Noruega, Polícia traz interessantes elementos de estranhamento ao(à) leitor(a) acostumado com tramas norteamericanas. O funcionamento da polícia norueguesa, desde as relações políticas da corporação até a hierarquia interna, além dos cenários e nomes pouco familiares dão um tom especial de descobrimento durante a leitura, como se, a cada página, estivéssemos não só descobrindo a história mas também um modo de contar a história, um modo de ser personagem, um modo de habitar uma cidade diferente do que estamos acostumados.

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O que diferencia Nesbø de outros(as) escritores(as) de suspense é que o medo se espalha por suas palavras para muito além da narrativa. Ele não só descreve os cenários, personagens e ações minuciosamente, deixando ver os momentos de tensão, como, também, produz o terror a cada parágrafo. É como se, lendo o livro, o(a) leitor(a) estivesse inserido naqueles cenários mais do que como leitor, mas efetivamente como parte daquela história. É possível sentir o que sentem os(as) personagens; o frio ou o medo são quase palpáveis. Em diferentes momentos, o autor vai muito além de técnicas muito utilizadas nos suspenses policiais, como imagens envolvendo ventos, sobras ou ruídos. Ele brinca com a percepção do(a) leitor(a), enganando-o(a), levando-o(a) a pensar algo que, algumas linhas depois, mostra-se ilusório. Com isso, cresce a cada página a tensão, tornando impossível parar de ler.

Como todo bom suspense, as reviravoltas na trama são impecavelmente articuladas, complexificando a história e, mais uma vez, deixando o(a) leitor(a) desesperado(a) para saber o que, de fato, está acontecendo. Polícia é leitura obrigatória para qualquer pessoa apaixonada pelo gênero e, para aqueles(as) que estão precisando de um empurrãozinho pra se iniciar nos livros de suspense, Nesbø é uma aposta certeira.