Os 10 melhores poemas de John Donne

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A poesia de John Doone é uma curiosa mistura de contradições. Com traços metafísicos e espirituais, os poemas também são profundamente imersos na fisicalidade do corpo: amor, para ele, o amor é físico, mas também uma experiência que, no corporal chega até elevações espirituais. O seu estilo surpreendentemente simples (‘pelo amor de Deus, controla essa língua’ como começa um dos poemas desta lista), também guarda imagens complexas, com uso extensivo de metáforas que requerem cuidado ao serem analisadas. Para quem não conhece, John  Donne (1572 – 1631) foi um poeta jacobita inglês, pregador e o maior representante dos poetas metafísicos da época. Sua obra é notável por seu estilo sensual e realista, incluindo-se sonetos, poesia amorosa, poemas religiosos, traduções do latim, epigramas, elegias, canções, sátiras e sermões. Sua poesia é célebre por sua linguagem vibrante e metáfora engenhosa, especialmente quando comparada à poesia de seus contemporâneos.

Aqui a poesia completa de John Donne está condensada em suas 10 melhores poemas. E para você, qual a poesia preferida do poeta?

1- A pulga

Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.

Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu, a sós.
E embora possas dar-me fim, não dês:
É suicídio e sacrilégio, três
Pecados em três mortes de uma vez.

Mas tinge de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegres de dizes que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.
Então, tua cautela é desmedida.
Tanta honra hei de tomar, se concedida,
Quanto a morte da pulga à tua vida.

2- Bom Dia
Espanta-me, em verdade, o que fizemos, tu e eu
Até nos amarmos? Não estaríamos ainda criados,
E, infantilmente, sorvíamos rústicos prazeres?
Ou ressonávamos na cova dos Sete Santos Adormecidos?
Se alguma vez beleza eu de facto vi,
desejei e obtive, não foi se não um sonho de ti.
E agora, bom dia às nossas almas que acordam
E que, por medo, uma à outra se não contemplam;
Porque Amor todo o amor de outras visões influencia
E transforma um pequeno quarto numa imensidão.
Deixa que os descobridores partam para novos mundos,
E que aos outros os mapa-mundos sobre mundos mostrem.
Tenhamos nós um só, porque cada um possui, e é um mundo.
A minha face nos teus olhos, e a tua nos meus, aparecem,
que os corações veros e simples nas faces se desenham;
Onde poderemos encontrar dois melhores hemisférios,
Sem o agudo Norte, nem o declinado Oeste?
Só morre o que não foi proporcionalmente misturado,
E se nossos dois amores são um, ou tu e eu nos amamos
Tão igualmente que nenhum abranda, nenhum pode morrer.
tradução de Helena Barbas

3- Morte, Não te Orgulhes

Morte, não te orgulhes, embora alguns te provem Poderosa, temível, pois não és assim. Pobre morte: não poderás matar-me a mim, E os que presumes que derrubaste, não morrem. Se tuas imagens, sono e repouso, nos podem Dar prazer, quem sabe mais nos darás? Enfim, Descansar corpos, liberar almas, é ruim? Por isso, cedo os melhores homens te escolhem. És escrava do fado, de reis, do suicida; Com guerras, veneno, doença hás de conviver; Ópios e mágicas também têm teu poder De fazer dormir. E te inflas envaidecida? Após curto sono, acorda eterno o que jaz, E a morte já não é; morte, tu morrerás.

4- A Canonização (trecho)
Por amor de Deus cala-te, e deixa-me
amar
Ou critica o meu marasmo, ou a minha
gota,
Escarnece meus cinco cabelos brancos,
ou minha ruína.
Melhora o teu estado com riquezas, tua
mente com as artes,
Vai tirar um curso, arranja um emprego,
Atende a Sua Senhoria, ou a Sua Graça,
O Rei real, ou a sua face estampada,
contempla.
Intenta o que quiseres, eu aprovo,
Desde que me deixes amar.
Ai de mim, a quem ofende o meu amor?
Quantos cargueiros afundaram os meus
suspiros?
Quem acusa minhas lágrimas de inundarem
suas terras?
Minhas frialdades afastaram alguma
precoce Primavera?
Quando é que os calores acumulados
nas minhas veias
Acrescentaram mais um nome ao rol da
peste?
Os soldados encontram guerras, e os
advogados ainda acham
Homens litigiosos que procuram conflitos,
Embora ela e eu amemos.
Chama-nos o que quiseres, somos assim
feitos pelo amor;
Chama-lhe a ela uma, e a mim outra,
traça;
Também somos pavios e às nossas custas
perecemos,
E em nós próprios encontramos a águia
e a pomba.
O enigma da Fênix tem maior agudeza
conosco,
Nós os dois sendo um, o condensamos.
De tal modo a um ser neutro ambos os
sexos se ajustam,
Que desfalecemos e ascendemos como
um só, provando
Ser Misteriosos por este amor (…)




5- Em despedida: proibindo o pranto

Como esses santos homens que se apagam
Sussurrando aos espíritos “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
Dizem: “Ainda respira” E outros: “Não”

Nos dissolvamos sem fazer ruído,
Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não resiste
À ausência, que transforma em singulares
Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só
Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
Inércia, mas se move a cada passo.

Da outra, e se no centro quieta jaz,
Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás
E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me circular,
Encontrar meu final em meu começo.

6- O Indiferente

Posso amar tanto louras como morenas,
A que cede à abundância e a que trai por pobreza,
A que busca a solidão e a que se mascara e brinca,
Aquela que o campo cultivou e a da cidade,
A que acredita, e a que hesita,
A que ainda lacrimeja com olhos esponjosos,
E a rolha seca que nunca chora.
Eu posso amar essa e esta, e tu, e tu,
Posso amar qualquer uma, desde que não seja leal.

Nenhum outro vício vos satisfará?
Não vos será útil fazer como as vossas mães?
Ou, gastos todos os velhos vícios, inventaram novos?
Ou atormenta-vos o medo de que os homens sejam fiéis?
Oh, não o somos, não o sejais vós também,
Deixai-me conhecer, eu e vós, mais de vinte.
Roubem-me, mas não me prendam, deixai-me ir.
Devo eu, que vim a estas dores através de vós
Tornar-me vosso fiel súbdito, porque sois leais?
Vénus ouviu-me suspirar esta canção,
E pela maior doçura do amor, a variedade, jurou
Que a não ouvira até então, e não mais seria assim.
E foi-se, investigou, e depressa regressando
Disse: «Enfim, existem umas duas ou três
Pobres heréticas do amor
Que pretendem instaurar a perigosa constância.
Mas eu disse-lhes: Dado que pretendeis ser leais,
Sereis leais para com aqueles que vos sejam falsos.»
John Donne, in “Poemas Eróticos”
Tradução de Helena Barbas

7- Soneto Sacro XIV

Força meu peito, Deus trino; não é bastante
Que apenas batas, infles, brilhes e o remendes;
Pra erguer-me, me destrua e Tua força empreende
E quebra, sopra, queima; renova-me neste instante.

Qual cidade usurpada de outro governante,
Me esforço em receber-Te, mas, oh!, é em vão;
Seria salvo por teu vice-rei, a razão,
Mas, cativa, se prova infiel ou titubeante.

Inda te amo e seria amado avidamente,
Mas estou prometido pro teu inimigo;
Separa-me, desata ou rompa novamente

Aquele nó; me prenda ou leva-me contigo,
Pois não serei livre, a não ser escravizado,
Nem casto, se não for por ti violentado.

(Tradução: Marcus de Martini)

8- Vai apanhar uma estrela cadente
Vai apanhar uma estrela cadente,
Engravida da raiz de uma mandrágora,
Diz-me onde se encontra o passado,
Ou quem fendeu o pé do diabo,
Ensina-me a ouvir o cântico das sereias,
Ou a afastar o ferrão da inveja
E descobre
O vento
Que serve para melhorar uma mente honesta.
Se nasceste para ver coisas estranhas
Ou coisas invisíveis,
Cavalga dias e noites sem fim
Até que a neve cubra os teus cabelos,
Quando regressares, contar-me-ás
Todas as maravilhas que te aconteceram
E jurar-me-ás
Que em lugar algum
Vive uma mulher bela e honesta.
Se encontrares alguma, diz-me,
Tal peregrinação seria para mim uma doçura;
Mas não, não me digas, eu não iria,
Mesmo que fosse na porta ao lado,
Mesmo que ela fosse real, quando a encontrasses
E por fim me escrevesses a contar,
Enquanto eu lá chegasse,
Ela já teria sido falsa
Para dois ou três…
9- Elegia – Indo para o leito
Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atlanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.
10- Onde, qual almofada sobre o leito,
A areia grávida inchou para apoiar
A inclinada cabeça da violeta,
Nós nos sentamos, olhar contra olhar.
Nossas mãos duramente cimentadas
No firme bálsamo que delas vem,
Nossas vistas trançadas e tecendo
Os olhos em um duplo filamento;
Enxertar mão em mão é até agora
Nossa única forma de atadura
E modelar nos olhos as figuras
A nossa única propagação.
Como entre dois exércitos iguais,
Na incerteza, o Acaso se suspende,
Nossas almas (dos corpos apartadas
Por antecipação) entre ambos pendem.
E enquanto alma com alma negocia,
Estátuas sepulcrais ali quedamos
Todo o dia na mesma posição,
Sem mínima palavra, todo o dia.
Se alguém – pelo amor tão refinado
Que entendesse das almas a linguagem,
E por virtude desse amor tornado
Só pensamento – a elas se chegasse,
Pudera (sem saber que alma falava
Pois ambas eram uma só palavras),
Nova sublimação tomar do instante
E retornar mais puro do que antes.
Nosso Êxtase – dizemos – nos dá nexo
E nos mostra do amor o objectivo,
Vemos agora que não foi o sexo,
Vemos que não soubemos o motivo.
Mas que assim como as almas são misturas
Ignoradas, o amor reamalgama
A misturada alma de quem ama,
Compondo duas numa e uma em duas.
Transplanta a violeta solitária:
A força, a cor, a forma, tudo o que era
Até aqui degenerado e raro
Ora se multiplica e regenera.
Pois quando o amor assim uma na outra
Interanimou duas almas,
A alma melhor que dessas duas brota
A magra solidão derrota,
E nós que somos essa alma jovem,
Nossa composição já conhecemos
Por isto: os átomos de que nascemos
São almas que não mais se movem.
Mas que distância e distracção as nossas!
Aos corpos não convém fazermos guerra:
Não sendo nós, não convém fazermos guerra:
Inteligências, eles as esferas.
Ao contrário, devemos ser-lhes gratas
Por nos (a nós) haverem atraído,
Emprestando-nos forças e sentidos.
Escória, não, mas liga que nos ata.
A influência dos céus em nós atua
Só depois de se ter impresso no ar.
Também é lei de amor que alma não flua
Em alma sem os corpos transpassar.
Como o sangue trabalha para dar
Espíritos, que às almas são conformes,
Pois tais dedos carecem de apertar
Esse invisível nó que nos faz homens,
Assim as almas dos amantes devem
Descer às afeições e às faculdades
Que os sentidos atingem e percebem,
Senão um Príncipe jaz aprisionado.
Aos corpos, finalmente, retornemos,
Descortinando o amor a toda a gente;
Os mistérios do amor, a alma os sente,
Porém o corpo é as páginas que lemos.
Se alguém – amante como nós – tiver
Esse diálogo a um ouvido a ambos,
Que observe ainda e não verá qualquer
Mudança quando aos corpos nos mudamos.
Tradução de Augusto de Campos

Fonte:

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http://cseabra.utopia.com.br/poesia/poesias/0035.html
https://carmengoncalves.wordpress.com/2011/05/02/the-good-morrow-de-john-donne/
http://mensagensepoemas.uol.com.br/mensagem/morte-nao-te-orgulhes-embora-alguns-te-provem-poderosa-temivel-pois-nao-es-assim-pobre
https://sinosdobram.wordpress.com/tag/john-donne/
http://picosderoseirabrava.blogspot.com.br/2010/08/traducao-do-poema-go-and-catch-falling.html
http://arlindo-correia.com/020301.html