Fitzgerald e os Roaring 20s: uma análise histórico-contextual de The Great Gatsby – Parte I

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The Great Gatsby, para quem não leu, é um romance do início da década de 1920, escrito pelo estadunidense F. Scott Fitzgerald. Sua relevância foi quase que totalmente ignorada, pois as críticas no ano de seu lançamento (1925) e as que se seguiram sempre julgavam a obra como pobre, vaga e a vendagem foi baixa. Mas esse cenário mudou em meados da década de 40, com o início da II Guerra Mundial. Infelizmente, Fitzgerald morreu em 1940 acreditando que seu livro tinha sido um completo fracasso. A boa notícia é que a ressurreição do livro se deu de tal forma que ele foi incluso como componente curricular nas escolas dos EUA e em cursos superiores voltados à literatura, e com suas várias adaptações para o cinema, hoje é considerado um dos grandes clássicos da literatura.

SPOILER ALERT!

Antes de apresentar a análise, farei um resumão de personagens para que vocês possam lembrar quem é quem:

Jay Gatsby: personagem principal, self-made man (se fez rico), mora em West Egg;
Daisy Buchanan: amor perdido de Gatsby, casada com Tom Buchanan, veio de família rica (aristocrata), mora em East Egg;
Nick Carraway: vizinho de Gatsby e narrador-personagem da história, também ganhou seu dinheiro por mérito próprio;
Tom Buchanan: marido arrogante e hipócrita de Daisy, parte da aristocracia;
Jordan Baker: jogadora de golf, também proveniente de família rica – porém, ela faz parte das chamadas flappers: nova onda mulheres solteiras nos anos 20, mais independentes, que dirigiam, fumavam, iam à festas e não queriam saber de marido;
Myrtle Wilson: amante de Tom, casou-se com um mecânico e dono de uma garagem, George Wilson, é super infeliz no casamento e mora em Valley of Ashes;
George Wilson: marido de Myrtle e assassino de Gatsby;
Meyer Wolfshiem: amigo judeu de Gatsby, ele é um apostador e faz negócios ilegais com Gatsby.

Dado os nomes aos bois, vamos ao que interessa:

A história do livro se passa numa cidade ficcional de Nova York chamada West Egg. West Egg e East Egg são os lugares onde acontecem a maior parte da trama e ambos representam mais do que lados opostos de uma mesma região. A ambivalência Oeste X Leste nos Estados Unidos tem um forte significado de dinheiro novo X dinheiro velho. Como assim? Bem, Jay Gatsby e Nick Carraway moram em West Egg, eles têm uma riqueza recente, se fizeram ricos há pouco tempo e ambos recebem críticas pesadas por parte de Tom Buchanan, que já era rico e fazia parte da aristocracia da época. Aqui temos um conflito de classes clássico, onde os já ricos acham que os pobres devem permanecer exatamente onde estão, e encaram qualquer ascensão social como uma afronta ao tradicionalismo e ninguém merece subir, seja lá por quais meios forem.

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O dinheiro de Gatsby e Carraway se fizeram de forma bem característica da época em que fora escrito o romance. 1919 foi ano em que “A Proibição” começou a vigorar. Aqui no Brasil podemos comparar esse Ato como uma Lei Seca bem extremista. Nessa época produzir, transportar ou consumir qualquer bebida alcoólica era considerado um crime. Um erro, obviamente, já que proibir só aumenta o desejo das pessoas pela substância, seja lá qual for. Bom, com esse Ato tão radical começou a surgir os chamados “bootleggers”, pessoas que vendiam bebidas por debaixo do balcão, e o crime organizado nos Estados Unidos começou a se estabelecer. Esse era o verdadeiro negócio de Gatsby. Ele tinha uma rede de drogarias apenas como fachada, o dinheiro dele vinha mesmo era da venda de bebidas alcoólicas. E não era só gente pobre que ia atrás não! Até mesmo gente importante, como o senador, ia atrás do líquido proibido.

Já no caso do Carraway seu dinheiro veio de uma forma bem comum, não ilegal, mas ainda assim bizarra: ele vendia ações. Pedaços de papel sem qualquer valor que não o da palavra escrita. Isso fazia com que as pessoas gastassem, esbanjassem, o que elas não tinham e esse tipo de negócio se mostrou um erro em 1929, quando a pior crise econômica já vista nos EUA se instaurou. Sob vários nomes como “The Wall Street Crash of 1929”, “Black Tuesday”, “The Great Crash”  e por aí vai, a Grande Depressão que se seguiu no anos 30 nos Estados Unidos foi, de certa forma, prevista por Fitzgerald em sua forma de retratar como e o que as pessoas faziam para atingirem o tal Sonho Americano (The American Dream) – assunto que abordarei semana que vem.

Na época em que o livro foi escrito, o até então presidente Warren G. Harding foi alvo de um enorme escândalo político conhecido como Teapot Dome. Harding dizia estar ao lado das minorias e das mulheres e ele também estava associado ao avanço tecnológico e econômico ao qual os EUA estava passando. Seus amigos, porém, usavam suas posições oficiais para enriquecerem às custas do povo. Bem parecido com a situação atual do nosso país, quase um século depois. A sensação de desesperança já começava a dar as caras por ali.

Ainda sob o escopo histórico é importante levarmos em consideração a I Guerra Mundial e seus sobreviventes, que é o caso de Gatsby e Carraway, ambos veteranos de guerra. O clima pós-guerra nos Estados Unidos e o pessimismo de fragilidade da vida disfarçado de euforia foram de extrema importância para o enredo. Jovens que saiam vivos da guerra tinham agora uma visão cínica e desiludida sobre o mundo. Sobre isso, Fitzgerald se encaixa em uma categoria chamada The Lost Generation, que era justamente essa geração de homens vindos da guerra que criticavam toda a frivolidade e materialismo individualista da sociedade nos anos 20 por meio dos livros (romances e/ou contos).

Na parte II desta série vamos acompanhar como Fitzgerald criticou o infame American Dream e todas as nuances contraditórias existentes neste sonho sonhado por tantos.

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