Do desejo, de Hilda Hilst, em 7 poemas cintilantes

Listas, Matérias Literárias, Poesia

Do desejo, publicado pela primeira vez em 1992, é uma reunião de sete livros da escritora Hilda Hilst: o primeiro, homônimo do título desse conjunto, Da noite, Amavisse, Via espessa, Via vazia, Alcoólicas e Sobre a tua grande face. A poeta, dramaturga e ficcionista jauense, morta em 2004, é tida como uma das vozes poéticas mais importantes em língua portuguesa do último século. Nos poemas de Do desejo é confrontado o Nada em face da fugacidade dos deslumbramentos, um motivo literário identificado, não apenas nesse trabalho, como, também, em outros da autora.

O NotaTerapia selecionou sete poemas do livro para bem aprender as vias do desejo:

1- I (Porque há desejo em mim, é tudo cintilância) de O desejo

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

2- II (Colada à tua boca a minha desordem) de O desejo

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

3- V (Existe a noite, e existe o breu) de O desejo

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

4- VII (Lembra-te que há um querer doloroso) de O desejo

Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Há o caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Porque me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?

5- I (De cigarras e pedras, querem nascer palavras) de Via espessa

De cigarras e pedras, querem nascer palavras.
Mas o poeta mora
A sós num corredor de luas, uma casa de águas.
De mapas-múndi, de atalhos, querem nascer viagens.
Mas o poeta habita
O campo de estalagens da loucura.

Da carne das mulheres, querem nascer os homens.
E o poeta preexiste, entre a luz e o sem-nome.

6- VI (Que as barcaças do Tempo me devolvam) de Amavisse

Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

7- XVI (Devo viver entre os homens) de Amavisse

Devo viver entre os homens
Se sou mais pelo, mais dor
Menos garra e menos carne humana?
E não tendo armadura
E tendo quase muito de cordeiro
E quase nada de mão que empunha a faca
Devo continuar a caminhada?

Devo continuar a te dizer palavras
Se a poesia apodrece
Entre as ruínas da Casa que é a tua alma?
Ai, Luz que permanece no meu corpo e cara:
Como foi que desaprendi de ser humana?

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