Me Chame Pelo Seu Nome: quando se pode dispensar o discurso

Cinema

A temporada de premiações cinematográficas de 2018 vem sendo marcada tanto pela diversidade de seus títulos mais relevantes quanto pelo furacão que assola Hollywood fora das telas. As denúncias contra o magnata da indústria Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey tocaram ainda mais fundo a já sensível ferida do assédio e do abuso no cinema. Ultimamente, as movimentações da indústria cinematográfica vêm sendo analisadas com muito mais consciência – ou, pelo menos, a intenção de uma –, e há uma vontade imperante de senso de igualdade e justiça. São tempos barulhentos.

Em meio à tempestade de acusações, de discursos inflamados e de um drama maior no tapete vermelho, conhecemos Me Chame Pelo Seu Nome (2017), dirigido por Luca Guadagnino (de A Bigger Splash e Um Sonho de Amor) e baseado na obra homônima de André Aciman. O filme independente, que esteve em produção por mais de três anos, conseguiu indicações importantes para o Globo de Ouro e o SAG Awards (Prêmio do Sindicato dos Atores) e hoje é o (superficialmente e erroneamente chamado) “filme gay” em destaque em 2018, tal como foi Moonlight – Sob a Luz do Luar (2016) e Carol (2015). A película de Luca Guadagnino conta com o roteiro adaptado de James Ivory (de Uma Janela Para o Amor e Vestígios do Dia, que a princípio também dirigiria o filme com Guadagnino) e algumas canções especialmente compostas por Sufjan Stevens.

Me Chame Pelo Seu Nome se passa no verão de uma ensolarada cidade no norte da Itália, em 1983, mais precisamente na casa da culta e multicultural família Perlman. Todo verão, o estudioso de cultura clássica Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) acolhe algum estudante de pós-graduação para uma temporada em sua casa, sob sua orientação acadêmica, em troca de um trabalho como assistente. Num desses verões, surge Oliver (Armie Hammer), um filósofo americano prestes a publicar o seu livro e cuja personalidade estelar instiga Elio (Timothée Chalamet), filho de Perlman.

 

A partir desse encontro, a cidade italiana não-identificada – talvez propositalmente? –, os outros personagens, o momento histórico (vale lembrar o descoberto pesadelo da AIDS) despercebidamente vão desaparecendo: há muito mais a se ler e explorar nas interações não-verbais entre Elio e Oliver, na delicadeza harmonizada com o erotismo, na escolha impecável de palavras. Ambos, que estão imersos nesse universo intelectual em que as palavras e a lógica reinam, acabam vivendo o amor e descobrem os momentos em que o verbo é dispensável ou, ainda, inútil. Por outro lado, quando há palavras, não surpreendentemente são as palavras precisas. Conhecer os sentimentos de Elio e Oliver é mergulhar numa visão filosófica e espiritual do amor em que os personagens tanto cultivam. o relacionamento entre os dois, da maneira que é concebido, foi subtraído ao simples sentimento entre duas pessoas, inviolável pela realidade.

O romance de André Aciman foi, sem dúvidas, um norteador na narrativa cinematográfica. Contudo, enquanto o livro é narrado pelo intelectualizado adolescente Elio – e, por isso, é uma busca incansável pela expressão máxima dos acontecimentos –, o filme não apresenta esse mesmo modelo narrativo. Só existe o que é falado e, principalmente, agido, sem a interferência das digressões de Elio. Mesmo sem essas observações, o filme é igualmente intenso em sua proposta de história de amor e da chegada da maioridade, apostando sobretudo na atuação de seus intérpretes. Mas ainda será compreendida a pessoa que decidir ler a obra de Aciman, recém-lançada no Brasil, após o filme – afinal, tal como Elio e Oliver, ainda perseguimos o discurso na tentativa de um maior entendimento de tudo.

 

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