Uma conversa sobre os afetos e pelos afetos: “O que move as paixões”, de Clóvis de Barros Filho e Luiz Felipe Pondé

Filosofia, Leituras, Resenha

Editora: Papirus 7 Mares
Ano: 2017
Páginas: 107
Edição: 1ª

A modernidade é uma época que tem por objetivo controlar tudo. E o afeto, por definição, é aquilo que não é controlável (Luiz Felipe Pondé)

(…) o afeto, no fim, é uma espécie de interpretação que fazemos da maneira como o mundo vai nos transformando, como vai nos modificando nas múltiplas relações que mantemos com ele (Clóvis de Barros Filho)

2017 foi um ano difícil em vários aspectos, mas acho que muita gente concordaria em destacar que uma das maiores dificuldades foi o diálogo. As opiniões sobre tudo se polarizaram, todos e todas fomos convocados(as) a informar o mundo, pela internet, tudo o que pensamos sobre tudo. Foi-nos exigido se colocar, tomar lado, fincar o pé numa posição – porque o outro, o diferente, parece ter se tornado uma ameaça.

Talvez por isso ler “O que move as paixões”, livro que nada mais é do que um diálogo entre dois pensadores sobre temas que circundam o campo dos afetos, tenha representado uma espécie de respiro num ano tão cheio de disputas. Clóvis e Pondé propõem um diálogo, um debate – mas não como muitos dos que vemos hoje que nada mais são do que a junção de um tanto de pessoas que pensam a mesma coisa sobre um assunto falando pra outras pessoas que pensam também igual a elas. Clóvis e Pondé realmente dialogam, porque partem do princípio de que para dialogar é preciso fazer emergir a diferença.

Isso não significa que os autores pensem totalmente diferente sobre todos os temas que abordam, mas sim que, a partir das diferenças teóricas e de diferentes escolhas a respeito de como tratar estas temáticas, eles constroem, juntos, um pensamento sobre o tema. E é aí que reside a riqueza desta obra: ver, nas linhas do texto, a cada página, a arte de dialogar.

O formato com que o livro foi pensado potencializa esta proposta: ao ser escrito como um diálogo, a fala de um seguida réplica que, por sua vez, é seguida de uma tréplica, quase faz o leitor ver-se assistindo ao vivo a esta conversa. Ao leitor, não cabe concordar com este ou discordar daquele, mas sim ser espectador ativo – no sentido de que não apenas observa a conversa mas se insere nela, ao mesmo tempo em que a insere em sua vida – destes raros momentos de coexistência das diferenças.

“O que move as paixões”, além de abordar esta temática tão importante ética, estética e politicamente no mundo contemporâneo – os afetos -, deixa marcada a cada página, a cada fala, a importância de se pensar o mundo a partir de uma ética da diferença: pois é na diferença que é possível construir, somar, modificar. E, afinal, falar de afetos nada mais é do que falar em deixar-se afetar – pela diferença, pelo outro, pelo mundo.