Godless (Netflix): um velho-oeste caro aos dias de hoje

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Godless não é a série que você espera. Ou pelo menos que eu esperava. Ao ver o trailer, cometi o erro que nenhum crítico deveria cometer: o de me colocar acima do que a obra contará e colocar lentes para uma leitura ideologizada ao invés de permitir-me inserir nela. Uma cidade em que quase todos os homens morreram e as mulheres têm trabalhar em obras e segurar em armas: a proposta parece tentadora ao entrar numa reescritura da história e fazer propaganda política de movimentos sociais, no entanto, mais que isso, Godless revisita e reafirma o gênero de faroeste e brinca com nossa imaginação, fazendo com que o espectador saia do lugar comum e se entreponha naquilo que já foi explorado e em novas condições que provocam os novos conflitos.

O gênero de velho-oeste espaguete, muito conhecido após as décadas de 60 e 70, já foi explorado de diversas maneiras e o tema principal trabalhado é quase sempre o da importância da existência da lei e da ordem, ou pelo menos de uma instituição que seja capaz de auxiliar na regulação das paixões humanas quando exercidas sem freios. Em Godless, somado a isso, vemos um escalonamento dessa ideia: La Belle não é só uma cidade sem lei, bem como quase não tem homens (que exerciam o papel de protetores da casa, da cidade, provedores da família etc.), e, para mais, nota-se a insistência constante do seriado de mostrar que na região, para além da lei dos homens, falta a lei divina e o sentimento de reconhecimento de Deus.

Viktor Frankl uma vez afirmou que o homem moderno carece de uma falta de sentido na vida, e que isso gera um sofrimento: Godless usou o velho-oeste de modo magistral para mostrar, de certa forma e em escala mais física o desespero de quem se abandona ao relento, de quem se abandonaria de Deus e da ordem do mundo.  Supersticiosos acreditam que uma mulher trouxe toda a desgraça à cidade após ter perdido dois maridos e morar com uma nativa e o filho;  um vilão que cita (e distorce) a Bíblia a seu bel prazer e se faz de pastor quase sempre antes de cometer uma atrocidade ou ato contraditório; um xerife que está à beira da cegueira e é visto como covarde (querem uma metáfora mais clara que essa?); um pastor que nunca chega à cidade, e mulheres imersas num desespero que a fazem aceitar um acordo com mineradores para que haja repovoamento da cidade e volta de homens – chegando, inclusive, a entregar a lei a um carrasco. Há uma distorção da verdade e justificativas mentirosas para embasar seus atos humanos sem amparo por aquilo que seria bom ou verdadeiro.

Vendo o contexto, percebemos que a série realmente abre um espaço para um debate constante sobre a realidade famliiar. Família é quem cuida e cria, provém alimentos? Contando com isso, Frank Griffin seria realmente um pai para Roy Goode. No entanto, ele percebe a mentira em que vive quando dois personagens que cometeram um massacre são chamados para o bando e são tratados por Griffin como família. Ali, percebemos que a família é íntima à Bondade e à Verdade: Goode é profundamente ligado e grato à Irmã Lucy, porém, ao dar o dinheiro conseguido em seus golpes a ela, e ela agradecer a Deus por isso, não mais retorna para vê-la quando percebe que está no caminho errado – e que, ao mesmo tempo, o bem sempre arranja formas de romper o mal.

E assim como seu nome, Goode (que é pronunciado como Good, ou “Bom”), é um personagem que intrinsecamente sente o chamado da bondade. Ele não queria fazer parte desses massacres e ao ver a já citada cena na qual a Irmã Lucy agradece a Deus pela ajuda dele e também entrega a carta de Jim Goode a ele, Roy fica abalado demais para continuar caminho que deixa um rastro de maldade. Após isso, o fora-da-lei decide abandonar o bando, e sabe que carregará o fardo de ser perseguido pelos maus, porém, carrega sempre consigo a carta do irmão como lembrança do que realmente é sua família e de que existe bondade nessa “terra sem Deus”, como uma vez disse Griffin.

Após um confronto com Griffin, Roy então chega a La Belle e é salvo por Alice Fletcher, a viúva de dois maridos – e, do contrário do que se espera, sua presença não causa a morte imediata de Roy. É curioso, por outro lado, lembrar como a Paternidade é tratada. Griffin tentou ser um pai para Roy,e o ensinou coisas boas que, por sua vez, são passadas à Truckee, filho de Alice pelo ex-fora-da-lei. Roy conta-nos que além de desenterrar o pai para dar-lhe um lugar de repouso mais digno, ele veste as roupas do seu pai e é neste momento em que fica explícita sua assunção da identidade e atitude paterna com Truckee. Há no ato de vestir-se com as roupas do pai um simbolismo. E, em partes, a partir dessa sua ação de paternidade começa sua redenção, que também pode ser percebida pelo adestramento de cavalos e por ensinar o garoto a montá-los.

Inclusive há, na série, grande ênfase a esses momentos em que Roy Goode doma os cavalos e ensina o filho de Alice a fazê-los. Cena que, aliás, lembram muito alguns momentos do romance “Todos os Belos Cavalos” de Cormac McCarthy. Os animais, desse modo, servem como símbolo de superioridade do homem à natureza, superioridade ao que é puro instinto. Griffin, na série, nos diz que o cavalo primeiro sente medo, foge para só depois lutar. O Cavalo é puro instinto; o homem, um ser razoável. Esse paralelo serve ali mostrar a doma dos instintos mais animalescos e o crescimento como pessoa civilizada: e é isso que acontece com Roy ao sair de um bando de foras-da-lei e deixar para trás suas armas enterradas – e só depois recuperá-las, já homem transformado.

No título, a ausência de um Deus; na série, as personagens levadas à perdição. No entanto, mesmo com tanta secura, as pessoas têm sede de religiosidade, mesmo que de inesperado. E, se não me engano, o filósofo Eric Voegelin afirma que a doença da modernidade é a falta de espiritualidade. Vemos daí, por exemplo, uma das personagens que está focada em construir um templo e preparar-se para a vinda de um pastor há muito aguardado – sem comunicação instantânea, sem facilidade de confirmação, as pessoas tinham de se resguardar na esperança, por mais improvável que fosse. Vejo como um recado aos dias de hoje.

Na série, as personagens carregam uma espécie de fé árida, em luto, muito notada no ambiente que reflete a realidade espiritual dos habitantes.

Já na parte técnica, a obra apresenta uma fotografia exuberante que presta referência aos filmes aos quais se baseia, bem como takes nos quais você agradece por poder vê-los na atualidade e em alta qualidade. E esse zelo de mostrar a aridez espiritual e a retomada da espiritualidade – muitas vezes pelo ambiente, ou pelo filtro escolhido nos flashbacks, por exemplo –, criam cenas memoráveis e que consegue provocar uma das cenas mais bonitas de toda a temporada, na qual a cidade de La Belle, antes a esmo e sem esperança, recupera-se e, mesmo sem ter certeza da vinda de um Pastor, erguem a cruz na construção da Igreja enquanto o perigo caminha em direção a ela. Logo após isso, vê-se um vislumbre da mesma La Belle regenerada em seus tempos áureos.

O desenvolvimento de cada um dos personagens e do enredo da série lembra muito os filmes de faroeste espaguete, apresentando essa reafirmação do gênero e, por outro lado, trazendo o que há de melhor com uma visão modernizada – com o toque de série original Netflix, seja para o bem, ou seja para o mal (e, como parece ser um padrão da plataforma, há cenas de nudez feminina que não precisavam ser inseridas para dar entendimento à cena ou auxiliar no desenvolvimento).  Contudo, Godless se faz uma série memorável e necessária aos dias de hoje, em que muitos visam um hedonismo extremo e abandonam princípios que são caros à humanidade, de forma a nos impedir de cometer os mesmos erros do passado, e não necessariamente numa busca a dar enfoque a uma luta por ideia de liberdade cega e posições sociais – e vale lembrar que Antonio Candido, por exemplo, já defendera a Literatura como parte de Direitos Humanos embasando-se, em partes, na importância desses princípios caros à sociedade.

Por fim, a série apresenta um enredo bem fechado, com mensagens claras e que fogem bastante de apenas uma obra de militância, abordando questões profundas e de grande valia à humanidade como um todo e não em um momento ou quesito em específico. Apesar de algumas cenas de nudez desnecessárias, de seu desenvolvimento um pouco lento, muito por conta do gênero escolhido, os sete episódios são muito satisfatórios e apresentam tamanhos variáveis (indo de 41 minutos até a uma hora e vinte de duração), atendendo à necessidade do enredo num geral e de cada capítulo. A temática religiosa está muito presente, seja pela tentativa do delegado de recuperar a visão, desde o primeiro episódio, como a chegada do Pastor, que chegou tarde – mas não tarde demais –, para trazer algum acalento aos corações que tanto sofreram.

Godless é uma série de velho-oeste direcionada a nós, homens-áridos – também – do século XXI.

E como escreveu Jim Goode ao seu irmão:

“Aprendi que a vida é uma dádiva que recebemos. E que devemos vivê-la com honra e, se Deus permitir, deixar o que temos de melhor como legado. Agora sei que o dinheiro importa apenas para homens com mente pequena. O mais difícil é fazer o melhor possível como que se tem. Aprendi essas palavras e pensamentos lendo, algo que eu deveria ter aprendido a fazer há muito tempo atrás. Algo que devia ter te ensinado e, quem sabe, te poupado de algumas dores.”