J. M. Beraldo

249539_126987547383292_2369038_nJ. M. Beraldo é um nômade carioca que ganha a vida como game designer. Tem contos nas revistas Scarium e Trasgo, e nas antologias Brinquedos Mortais (2012), Sagas 4 (2013), O outro lado da Cidade (2015), Piratas! (2015) e Samurai x Ninja (2015). Publicou os livros Véu da Verdade (2005), Taikodom: Despertar (2008), Império de Diamante (2015) e Último Refúgio (2016). Tem ideias demais e tempo de menos, mas jura que um dia coloca tudo para fora.

OBRA:
Laicus

GÊNERO:
Fantasia Histórica

ANO:
2016

SINOPSE:
Após uma noite cujos próprios atos o atormentam a cada minuto do dia, Bernardo de Andrade larga a batina e parte para o Rio de Janeiro para cumprir sua última missão para sua rainha.
É 1810, dois anos após a chegada da Família Real Portuguesa a antiga colônia do Brasil, foragidos da guerra contra Napoleão. Na colônia tornada capital do reino, Bernardo encontra uma rainha louca, um regente desinteressado, uma princesa traiçoeira e um mistério antigo que envolve o inacreditável.
Forçado a aceitar sua nova residência nos trópicos, Bernardo se vê enfrentar o caldeirão de culturas e mitos das ruas do Rio de Janeiro, e verdades que homem algum deveria conhecer.

SKOOB:
Laicus

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ENTREVISTA COM O AUTOR:

NotaTerapia –  Em poucas linhas, o que é o seu livro Laicus? 

Laicus é uma história de terror fantástico passada nas ruas do Rio de Janeiro no início dos 1800’s, pouco depois da chegada da Família Real Portuguesa, fugida da guerra contra Napoleão. Na história, um ex-padre português chamado Bernardo chega à cidade para cumprir uma missão macabra para a rainha, que está louca. Obrigado a viver na cidade que não conhece, acaba esbarrando em uma conspiração de muitas décadas que o leva a conhecer o caldeirão cultural que mistura mitos europeus, indígenas e africanos.

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N – Quando você começou a escrever e quais as motivações que te levaram a escrever literatura e especificamente este livro?

Quando tinha uns 11, 12 anos de idade ganhei um livro-jogo chamado Masmorra Infernal, edição portuguesa de um livro britânico que veio anos mais tarde para o Brasil como acho que Calabouço da Morte. A ideia de ter um livro em que eu escolhia o caminho das coisas me fascinou. Brinquei com a ideia e cheguei a fazer um jogo parecido no computador ainda nessa época. Daí conheci RPG e comecei a criar minhas próprias histórias, apresentadas para amigos que se tornaram os protagonistas. Engraçado que só realmente pensei em escrever um livro muitos anos depois, já com meus 23 anos, enquanto trabalhava produzindo um jogo de computador com amigos. As ideias que não se encaixavam no jogo viraram enredo para meu primeiro livro.
A motivação é a mesma da maioria dos autores: contar histórias. Amo a ideia de contar histórias em diferentes formatos e hoje não consigo me ver fazendo outra coisa.
Laicus veio de uma mistura de coisas. Estudei História da faculdade, mas nunca fui muito ligado à História do Brasil. Anos depois o Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), do qual faço parte desde 2004, anunciou a chamada para uma antologia chamada Brasil Fantástico. Comecei a pesquisar mais sobre mitos brasileiros, que me levaram a ler mais sobre o Rio de Janeiro colonial, que me levaram a um conto que acabou se tornando a base desse livro, sobre um português atormentado por pesadelos muitos vívidos após chegar à cidade. O conto acabou não entrando na antologia, mas foi elogiado pelos organizadores. Isso me motivou a expandir a ideia.


N – Qual você acha que é e deveria ser o papel da literatura e das artes no mundo de hoje?

Muita gente fala de escapismo. Acho que é uma noção meio errada.

A literatura e as outras artes estão aí para inspirar, para fazer pensar, te forçar a cogitar outras possibilidades. Elas não precisam ser políticas ou tratar explicitamente de temas sociais para emocionar, deslumbrar ou mesmo motivar seu público. Ela só precisa existir e chegar ao seu público para ganhar vida.

N – Quais os(as) escritores (as) que te marcaram e influenciaram tanto na vida quanto na feitura de Laicus?

Tudo e todos influenciaram e influenciam de alguma forma, mas tenho certeza que não lembraria de um terço dos nomes de quem eu já li. Li muito H.P. Lovecraft e Neil Gaiman, muito Glen Cook e Michael Moorcock. Li Stephen King e George R. R. Martin, e muitos, muitos outros.
Mas aprendi também com outras mídias, com a narrativa em jogos, com a narrativa em quadrinhos, com desenhos animados e filmes. Existem aspectos da narrativa que são iguais não importa a mídia.
Acho que, mais do que qualquer outra coisa, essa mistura toda me ensinou a escrever de forma coloquial, direta, para não tirar o leitor da história com uma palavra inusitada ou desconhecida. Aprendi também com quem não escreve ficção. Câmara Cascudo teve, claro, muita influência na criação de Laicus, assim como outros historiadores e filósofos.
Marc Bloch disse que “O historiador é como o ogro da lenda: onde fareja carne humana sabe que ali está sua caça.”
Leonardo Boff disse que “Todo ponto de vista é a vista de um ponto.”
Não tem como ignorar duas citações como essas.

N – Quem abre Laicus logo percebe uma intensa relação entre história e magia, realidade histórica e realismo fantástico ou mágico, assim como uma intensa pesquisa sobre o Rio de Janeiro da época. A pergunta que faço é: até que ponto o rigor da pesquisa histórica ajuda nos espaços de criação desse mundo místico e se é verdade, como parece, que a criatividade, quando fincada em territórios bem mapeados, pode voar muito mais alto?

Eu acredito que a criatividade precisa de guias. Não barreiras, mas guias. Quando você tem liberdade demais, é fácil se sentir perdido, sem saber por onde começar. É uma sensação falsa de liberdade que pode acabar te podando.
Quando escrevo contos gosto de ter algumas palavras-chave pra guiar a criação da história. Pode ser o tema de uma antologia ou algo tão bobo quanto apertar o botão de ‘artigo aleatório’ da Wikipedia algumas vezes.
Para um livro, não dá para ser muito diferente. Seja ele algo com o pé mais no real como Laicus, ou algo totalmente fantástico como meus outros livros, ele vai envolver pesquisa. E essa pesquisa vai acabar não só guiando a construção da história, mas também alimentando-a com novas ideias direcionadas. Estudar sobre o Rio de 1810, sobre os mitos europeus, africanos e indígenas da época, sobre a história de Portugal e tanto mais trouxe tantas possibilidades que muitas tiveram de ficar de fora do livro. As que ficaram acabaram tornando a história melhor, mais bem amarrada numa teoria da conspiração com pés no real.

Existem problemas aqui e ali? De vez em quando. Uma situação histórica pode dar ideia para um personagem, mas aí você descobre que aquilo só aconteceu no ano seguinte ao que você está trabalhando. Aí entra aquele momento de decisão: vale a pena forçar essa pequena mudança para a história ganhar mais? Se vale, porque não fazer? Historiadores especializados no Rio de 1800 podem encontrar inconsistências em alguns aspectos do livro, e isso não tem problema por dois motivos:
Primeiro porque Laicus não é um tratado histórico, nem um livro acadêmico. É uma ficção baseada na História.
Segundo porque, se tem uma coisa que eu aprendi estudando historiografia é que não existe verdade, porque a História é inventada.
N – Algo que se destaca em sua biografia é a criação de roteiros para games. Por mais estranha que pareça a pergunta: como o mundo dos games trouxe para sua literatura um caminho (que eu percebo) que mais do que literário é lúdico, exploratório, quase convocando o leitor a participar e que, me parece, estar tão presente em Laicus?
Mencionei que aprendi muito de narrativa com outras mídias além do livro. Acho que tem muito disso.
O livro tradicional é uma mídia estática por natureza, quase monolítica.
Ao contrário dos livros e filmes, os jogos são mídias interativas. O jogador é mais do que só um observador. Ele tem ação,  e interromper essa ação, tirar o controle da mão do jogador, é uma péssima escolha.
O escritor de jogos acaba aprendendo a contar histórias através de outras formas. É a arte e a construção da fase, são as mecânicas do jogo e a música. Vai muito além do texto, seja ele escrito ou falado. Isso acaba voltando na hora de escrever um livro, porque você aprende a se comunicar de outras formas. Talvez isso acabe dando um dinamismo ao texto que não provoca uma parada na narrativa como alguns textos mais pesados costumam fazer.

RESENHAS:

“Devorei, entre a noite a madrugada deste fim de semana, Laicus. É uma boa história contada em um Rio de Janeiro no período joanino, com uma bela pesquisa feita e sabidamente apresentada, ou seja, sem substituir a história pretendida, que apenas ajuda a imaginar como era um Rio de Janeiro, nesse momento, de pouco mais de 200 anos atrás. Para um carioca como eu, imaginar como era esta ou aquela rua do Centro – ou, como chamamos aqui, a Cidade – 200 anos antes foi um belo exercício.
O livro mistura o misticismo da cidade de todas as misturas convivendo dificilmente por um lado, mas como a hipocrisia age como um recurso de boa vizinhança: o Rio de Janeiro permissivo, em que nada nunca é tão não-pode assim, para bem ou para mal. Com tramas históricas, fala de templário, feitiçaria indígena, africana – e mais de um tipo… – assim como fala das misturas dos sotaques, nacionalidades e cores.
É nesse Rio 40o., cidade maravilha do caos, que desembarca Bernardo de Andrade, ex-padre ainda a serviço de D. Maria I, a Louca, e se vê nos breves dias que fica, enrodilhado em tempo recorde em tramas de corte e sobrenaturais.
Destaque para o menino Antônio que, tenho certeza, é uma espécie de Espírito da Cidade, que demonstra em sua juventude ter despertado como identidade somente naquele momento, apesar do Rio existir então há mais de outros 200 anos.”

Luiz Felipe Vasques, Ganhador do prêmio Argos de melhor conto com O Último Caçador Branco e de melhor antologia com Kaiju – Monstros Gigantes